Apesar das eleições em Madhya Pradesh ocorrerem só daqui a 18 meses, dois líderes cristãos associam a ligação entre a política do partido nacionalista hindu com o aumento da perseguição religiosa.

Desde a conferência de bispos católicos em julho de 2006, Madhya Pradesh recebeu relatos de mais de 55 ataques patrocinados pelo Bharatiya Janata (BJP), partido que controla o coração da Índia, contra uma pequena minoria cristã.

Em 16 de março, um policial do distrito de Khargone prendeu dois pastores independentes depois que os moradores locais se queixaram de que eles estavam ferindo seus sentimentos religiosos.

No dia 6 de março, extremistas do Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS) e do Bajrang Dal espancaram o pastor Binoy Kuriakose, da Igreja Evangélica Indiana, e dois outros cristãos que estavam distribuindo literatura cristã no vilarejo de Sailana, a 20 quilômetros de Ratlam.

No dia 2 de março, 15 extremistas atacaram uma reunião cristã em Patakhera, distrito de Betul, destruindo e saqueando as instalações. Eles invadiram uma reunião da igreja independente liderada pelo reverendo Avinash Kanchan e bateram nos cristãos presentes, entre eles 25 mulheres e cinco homens.

Para protestar contra o aumento da violência, uma líder cristã em Madhya Pradesh iniciou uma greve de fome em 5 de abril, quinta-feira santa. Indira Iyengar, que já fez parte da Comissão de Estados Minoritários, disse ao Compass que quebrou o jejum só depois que o diretor geral da polícia de Madhya Pradesh assegurou que a comunidade cristã seria protegida contra os ataques de extremistas hindus na sexta-feira santa e na Páscoa.

“Eu tive de dar esse passo porque as atrocidades contra os cristãos aumentaram de múltiplas formas e não havia qualquer ação do governo para pôr fim aos ataques dos extremistas”, explicou Indira.

Indira Ivengar, que é presidente da Associação de Cristãos de Madhya Pradesh, disse que muitos legisladores muçulmanos e líderes se uniram à greve de fome em favor da harmonia religiosa. “Membros de uma comunidade muçulmana minoritária também estão vivendo tempos difíceis em seu Estado”, disse ela.

Os extremistas hindus em Madhya Pradesh freqüentemente blasfemam contra os cristãos para incitar a violência. O partido BJP e grupos extremistas hindus afirmam que os cristãos convertem os povos tribais e hindus pela força ou aliciamento. Os cristãos negam as acusações.

Indira contou que no dia 31 de março uma mulher que afirma ser santa pela seita hinduísta Nirala Peeth, de nome Snehlata Kedia, discursou contra as mulheres e os conceitos cristãos de confissão na frente do prédio do governo de Bharat Bhawan, antes da audiência da nomeação de novos oficiais. “Kedia disse que a entrevista com padres cristãos tinha questões estranhas, como o caso de perguntas sobre a confissão forçada de garotas hindus a verem sinais, o que deixa um impacto pouco saudável em suas mentes”, contou Indira.

Segundo ela, Kedia citou matérias nos meios de comunicação afirmando que os padres cristãos costumam fazer sexo com garotas até que elas se tornem cristãs. “Kedia também tem CDs com suas mensagens e suspeito agora que esses CDs sejam distribuídos em todos os lugares do Estado”, disse ela.

Eleição estratégica

Anand Muttungal, relações públicas da Conferência de Bispos Católicos de Madhya Pradesh, e Indira Iyengar associam os ataques violentos à ocorrência das eleições no Estado, em 2008. “Parece que o BJP já começou a sua campanha eleitoral”, disse Indira.

De acordo com o censo de 2001, os cristãos representam apenas 0.3% da população de 60 milhões de pessoas em Madhya Pradesh. Eles formam, portanto, um contingente de aproximadamente 18 mil.

Os nacionalistas hindus do partido BJP chegaram ao poder depois de derrotarem o Partido Congressista em dezembro de 2003. Os nacionalistas preferem eleger um hindu do BJP, do que alguém ligado a um grupo favorável a religiões minoritárias, como o Partido Congressista.

Para estimular o povo contra essa ameaça, o próprio BJP se apresenta como protetor da fé hindu. O partido prega que os missionários cristãos estão convertendo hindus com dinheiro estrangeiro e atribuem essa tendência ao Partido Congressista da líder Sonia Gandhi, que foi alcançada pela Igreja Católica Romana. Dessa forma, demonizando os cristãos, eles servem a um objetivo fundamental dos nacionalistas hindus, que por sua vez necessitam de um inimigo para garantir a sobrevivência.

Muttungal disse que em novembro de 2004 a ministra aposentada e líder sênior do BJP, Uma Bharti, foi afastada por criticar seus colegas pela violência crescente. Em maio de 2005, foi levada ao comitê executivo do BJP por causa da pressão feita pelo RSS, mentor ideológico do BJP, antes de ser expulsa em dezembro de 2005. Em abril de 2006 Uma e seus colegas dissidentes do BJP fundaram o novo partido Bharatiya Janashakti (poder do povo indiano).

Muttungal disse que os Bahrti e os líderes do BJP em Madhya Pradesh culpam um ao outro pela violência crescente contra cristãos e muçulmanos, “mas nenhum deles assegura proteção à minoria perseguida”.

Ambos os partidos parecem dar corda aos extremistas hindus antes das eleições de 2008. Enquanto isso, os militantes do BJP e da área rural parecem estar perdendo apoio.

Jabalpur, no distrito de Madhya Pradesh, é a região que registra a maior incidência de violência contra cristãos. Dos 55 incidentes registrados desde julho de 2006, 34 ocorreram só em Jabalpur.
Em 2007, pelos menos sete ataques aconteceram na região. Indira Iyengar disse que além de Jabalpur, dos 45 distritos de Madhya Pradesh, os que mais registram casos semelhantes são: Mandla, Dindori, Betul, Ujjain, Jhabua e Khargone. Muttungal acrescentou que a violência também ocorre em Balaghat e Barwani.

Os grupos extremistas hindus em Madhya Pradesh incluem Dharma Sena, Seva Bharat, Vanvasi Kalyan Ashram (tribo), Bajrang Dal e o RSS. Os seguidores do Dharma Sena acreditam que por trás da maioria dos ataques contra cristãos esteja o Conselho Mundial Hindu (VHP). O Bajrang Dal é o braço mais novo do VHP. O Seva Bharat e o VKA também estão registrados como organizações para o desenvolvimento de projetos sociais, principalmente em áreas de população tribal, mas debaixo dessa denominação, espalham o ódio contra os cristãos. O RSS, fundado em 1925, deu início a diversas organizações extremistas hindus, incluindo os VHP, Seva Bharat e Vanvasi Kalyan Ashram.

Projeto do BJP aumenta a perseguição

O histórico de violência em Madhya Pradesh data de antes da Independência da Índia, em 1947. E a perseguição religiosa vem ocorrendo ao longo das legislaturas do Partido Congressista e do BJP. Em 1968 os legisladores do Estado aprovaram uma lei anticonversão com o apoio do Partido Congressista.

A perseguição foi intensificada, contudo, depois que o BJP chegou ao poder em dezembro de 2003. A violência contra os cristãos eclodiu no distrito de Jhabua, depois de uma jovem ter sido encontrada morta em 11 de janeiro de 2004, em uma escola católica. Apesar de um não-cristão ter confessado o crime, os extremistas hindus responsabilizaram a igreja e deram início aos ataques contra cristãos e suas instituições.

O ministro-chefe do Congresso, Digvijay Singh, disse que no dia 9 de abril pelo menos 110 ataques foram promovidos, a maioria deles contra muçulmanos, no distrito de Rajgarh, três dias depois da lei do BJP.

A Comissão de Minorias em Madhya Pradesh contradisse o relato distribuído pela Comissão Nacional de Minorias em junho de 2006. Segundo a Comissão Nacional, os extremistas hindus passaram a invocar a lei estadual anticonversão como forma de incitar a população contra os cristãos e prenderam alguns deles sem qualquer evidência. “A vida dos cristãos se tornou miserável nas mãos de canalhas que contam com a conivência da polícia”, afirma o relatório. “Quando há alegações de atrocidades cometidas por cristãos, a polícia se coloca como mera espectadora e certamente nesses casos não há sequer o registro das ocorrências”.

De acordo com um relatório sobre os Direitos Humanos na Índia, do Departamento de Estado norte-americano, pelo menos 28 pessoas foram presas com base na lei anticonversão entre julho de 2005 e junho de 2006. Em contrapartida, Anwar Mohammed Khan, presidente da Comissão de Madhya Pradesh, disse que existem registros de ataques contra membros da comunidade cristã, mas que os extremistas não chegaram a atingir os cristãos.

Fonte: Portas Abertas