O papa-teólogo Bento XVI está completando 80 anos de vida nesta segunda-feira, insistindo como sempre na “primazia de Deus” sobre qualquer outro aspecto da vida e denunciando a “tentação” de se querer “interpretar o cristianismo como uma receita para o progresso, considerando-se a busca do bem-estar comum como o verdadeiro objetivo de toda a religião”

Há dois anos Bento XVI centrou progressivamente suas intervenções públicas em questões espirituais e éticas, limitando as declarações políticas ou diplomáticas a circunstâncias excepcionais.

Inspirador de inúmeros textos de João Paulo II sobre o atual laicismo da sociedade ocidental quando era um dos mais íntimos colaboradores do falecido Papa, Joseph Ratzinger é um intransigente defensor da dignidade da pessoa e da vida humana, “da concepção à morte natural”.

Por isso, ainda mais do que na época de seu predecessor, aborto, família, homossexualidade e eutanásia se converteram em temas de permanente enfrentamento entre a Igreja Católica e setores da sociedade civil dos países desenvolvidos, especialmente na Europa.

Em compensação, Bento XVI se aventurou pouco em questões que afetam outros setores, ao contrário de João Paulo II, cuja visão dos problemas do planeta era mais política, segundo os especialistas.

Outra preocupação do atual Pontífice é a unidade espiritual da Igreja em torno do Papa.

Neste sentido, pretende publicar em breve uma carta dirigida aos católicos chineses, divididos entre uma Igreja “patriótica”, subordinada ao governo comunista de Pequim, e uma Igreja clandestina sob a autoridade do Vaticano. Joseph Ratzinger, que presidiu por quase 25 anos, desde 1981, a célebre Congregação para a Doutrina da Fé, conhecido como Santo Ofício da Inquisição, foi também chamado Guardião do Dogma, por seu combate ao sacerdócio feminino e condenação da homossexualidade; ele, que considera o segundo casamento uma “praga” e impede o crescimento do laicismo dentro da Igreja não é, no entanto, considerado um ‘durão’.

“Eu não sou o grande inquisidor e tampouco me sinto uma Cassandra quando examino os fatores negativos na Igreja”, diz ele.

Até poucos anos a candidatura de Ratzinger ao trono de Pedro era impensável, por ser símbolo de uma polarização conservadora, mas hoje em dia ele é considerado com o peso e a autoridade suficiente para substituir um Papa do calibre de João Paulo II, que foi amado pelas massas de todo o mundo e que se converteu em guia moral dos cristãos.

Nascido no dia 16 de abril de 1927 em Marktl am Inn, na diocese de Passau, na Baviera, Ratzinger foi ordenado sacerdote no dia 29 de junho de 1951, nomeado arcebispo de Munique em março de 1977 e proclamado cardeal em 27 de junho de 1977 pelo Papa Paulo VI. Foi amigo pessoal, conselheiro e braço-direito de João Paulo II.

Banto XVI é o primeiro pontífice alemão desde a Idade Média.

A decisão de liberar a missa em latim, anunciada para as próximas semanas, depende somente de sua autoridade.

A medida poria fim ao cisma religioso integrista dos adeptos do falecido arcebispo francês Marcel Lefebvre. Mas corre o risco de provocar polêmica na França, onde os arcebispos vêem com maus olhos esta recompensa a uma corrente que rejeita as doutrinas do concílio Vaticano II sobre a abertura da Igreja ao mundo contemporâneo.

Bento XVI declarou em várias ocasiões sua adesão ao Vaticano II, mas também criticou certas “interpretações errôneas” do concílio que mudou profundamente a fisionomia da Igreja há 40 anos.

Bento XVI comemorou em 24 de março os 50 anos do Tratado de Roma com um discurso de uma severidade rara acusando a União Européia de esquecer sua herança cristã e de “privilegiar sistematicamente o compromisso” sobre a defesa “dos valores humanos essenciais”.

O especialista italiano em Vaticano, Sandro Magister, que considera este Papa “apaixonante”, reconhece “o julgamento, em certos aspectos, muito severo de Bento XVI sobre o homem moderno, que seria prisioneiro de uma estranha obscuridade que o faz viver como se Deus não existisse”.

“Mas ele acredita que a corrente pode ser revertida”, enfatizou Magister.

Segundo o especialista, uma prova disso seria a mudança na tendência da opinião pública italiana sobre as uniões civis, de acordo com uma pesquisa recente.

A campanha de uma estranha intensidade realizada há varios meses pela Igreja contra um tímido projeto governamental para regularizar uniões de fato parece ter dado frutos em um país ainda católico.

“Bento XVI se serve da Itália como levedura para fazer fermentar toda a Igreja”, refletiu Sandro Magister.

Em seu discurso sobre a Europa, Bento XVI insistiu no direito dos cristãos de “objeção de consciência cada vez que os direitos humanos fundamentais”, tal como são pregados pela Igreja católica, possam ser violados.

Fonte: AFP