Todas as vezes que os Manuscritos do Mar Morto são exibidos em qualquer parte do mundo, multidões de crentes postam-se em frente às vitrines climatizadas e observam maravilhados os antigos documentos.

À primeira vista, tal fascinação é irônica. Os fragmentos estão apagados – e alguns se tornaram totalmente pretos – devido à idade e aos efeitos dos aminoácidos das peles de animais nas quais os textos foram redigidos. A maioria se encontra ilegível.

Mesmo assim, os antigos pergaminhos, cuja descoberta fará 60 anos neste ano, não cessam de estimular a imaginação e proporcionam vislumbres importantes da vida da antiga Israel no alvorecer do cristianismo.

Acredita-se que os cerca de 930 documentos bíblicos e seculares tenham sido escritos por uma seita judaica dissidente entre 250 B.C. e 68 D.C.

Nos últimos anos, o mundo presenciou a pseudo-história altamente popularizada pela mídia, “O Código da Vinci”, a narrativa do “Evangelho Perdido de Judas” e a duvidosa alegação da descoberta da “tumba perdida” de Jesus.

Mas os especialistas consideram os Manuscritos do Mar Morto uma descoberta autêntica e sem paralelos. “Eles se constituem na descoberta arqueológica mais significativa do século 20”, afirma Adolfo Roitman, curador encarregado dos Manuscritos do Mar Morto no Museu de Israel, em Jerusalém.

A importância do pergaminho para os estudos religiosos e históricos não diminuiu com a passagem do tempo. Eles modificaram a forma como o mundo entendia a Bíblia.

“Eles são como ossos de dinossauros, tendo permanecido intocados por quase 2.000 anos e, apenas por acaso, através de um túnel no tempo, fomos capazes de chegar à antiguidade por meio desses pergaminhos, observando um fragmento de uma era importante para a formação da civilização ocidental”, diz Roitman.

À época da descoberta, os pergaminhos eram mil anos mais antigos do que qualquer outro texto bíblico. Eles contêm as mais antigas cópias conhecidas do Velho Testamento, ou Bíblia Hebraica. A maioria dos manuscritos é anterior ao mais antigo livro do Novo Testamento, seja a Primeira Epístola aos Tessalonicenses, seja a Epístola aos Gálatas, que foram redigidas por volta de 50 D.C.

A descrição, contida nos pergaminhos, de um grupo de judeus ascetas conhecidos como essênios, que foram tomados por idéias relativas ao Armagedon, e que viveram à época de Jesus, continua a fascinar e a gerar questões relativas ao judaísmo e à vida antiga na Terra Santa.

Os textos abriram uma nova janela para o entendimento do sectarismo que tomou conta da antiga Israel durante a ocupação romana e da intensidade da oposição dos judeus a outras doutrinas religiosas presentes em Jerusalém.

Nos manuscritos não há referências diretas a Jesus ou aos seus ensinamentos. E os documentos não oferecem nenhuma evidência aos cristãos que imaginariam que as pessoas que redigiram os textos conheceram Jesus, ou que o próprio Jesus teria sido o autor dos manuscritos.

Não obstante, os pergaminhos foram escritos por contemporâneos de Jesus, e revelam as esperanças e os temores do povo para o qual ele pregava, assim como as características da era em que essas pessoas viveram.

“É um mundo repleto de anjos e demônios. Um mundo no qual Deus está em luta contra Satanás. Um universo no qual existe possessão demoníaca e a possibilidade de curas, como as que Jesus teria praticado. É um mundo muito interessante, no qual ouve-se falar sobre a chegada de vários ou de um só Messias”, afirma James H. Charlesworth, professor especializado no Novo Testamento, que leciona no Seminário Teológico de Princeton, em Nova Jersey.

Os primeiro pergaminhos foram descobertos em 1947 por um pastor beduíno que achou que poderia haver ouro escondido nas cavernas próximas a Qumran. Essas cavernas se espalham pelas escarpas amareladas que se erguem 400 metros acima do lago de menor altitude do mundo, o Mar Morto.

Em vez disso, o pastor, Jum’a Muhamed Khalil, ouviu o som de potes de barro se quebrando quando moveu uma pedra que bloqueava a estreita entrada da caverna.

Os quatro pergaminhos que Khalil e dois outros pastores encontraram nos jarros e levaram para um vendedor de antiguidades em Belém renderam ao beduíno US$ 64,80. Em 1957, os outros manuscritos foram descobertos durante uma corrida aos tesouros arqueológicos no estilo Indiana Jones.

Hoje em dia, a caverna na qual Khalil descobriu os primeiros Pergaminhos do Mar Morto não contam com nenhum sinal identificador e estão infestadas por morcegos, e tão desoladas como provavelmente costumavam ser para aqueles que a usaram como local de armazenagem há mais de 2.000 anos.

Com o auxílio de modernos instrumentos, como aparelhos de imagem digital e fotografia infravermelha, os manuscritos – redigidos em sua maioria em peles de bois ou de carneiros com uma tinta que era uma mistura de fuligem, goma, óleo e água – foram traduzidos, para não dizer decodificados.

O que é óbvio para os acadêmicos em relação aos manuscritos – e consternador para os literalistas bíblicos – é que Deus não entregou a Bíblia na sua forma atual aos homens.

Segundo os acadêmicos, o conteúdo e a estrutura da Bíblia evoluíram a partir de textos anteriores.

A Escritura Judaica e aquilo que os cristão chamam de Velho Testamento foram adaptados por editores a fim de se adequarem às necessidades sociais, políticas, pessoais e devocionais desses indivíduos e das suas comunidades.

Os criadores dos manuscritos fizeram eles próprios as Escrituras, de forma semelhante ao que os fiéis fazem hoje em dia, conscientemente ou não, adotando e enfatizando alguns textos, e ignorando ou descartando outros.

“A Bíblica Hebraica está longe de ter descido do Monte Sinais em tábuas de pedra, tendo sido o produto de um longo processo de edição”, afirma Timothy H. Lim, professor de Bíblia Hebraica e de Judaísmo do Segundo Templo na Universidade de Edimburgo, na Escócia.

Os pergaminhos continuam chamando atenção porque além dos cerca de 200 manuscritos bíblicos eles contém poemas e histórias sobre gigantes, anjos, horóscopos e calendários. Ele falam nebulosamente de “Filhos do Alvorecer”, de “Filhos da Luz”, do “Homem da Mentira”, do “Professor da Retidão” e de uma figura messiânica moribunda.

Esse estilo vago e floreado deu margem à especulações livres sobre a identidade dessas figuras e lançou os pesquisadores em direções bizarras.

Por exemplo, John Allegro escreveu um best-seller sobre os pergaminhos e mais tarde um outro livro intitulado “Os Cogumelos Sagrados e a Cruz”, no qual alega que o judaísmo e o cristianismo foram produtos de um culto antigo baseado em sexo e cogumelos.

Durante mais de 40 anos, o acesso aos pergaminhos se restringiu a um pequeno grupo de editores – todos cristãos – trabalhando sob a supervisão da Autoridade de Antiguidades de Israel. Isso fez com que surgissem acusações de que os manuscritos continham informações que minavam os princípios fundamentais do judaísmo e do cristianismo e que os acadêmicos procuravam ocultar a verdade.

Os acadêmicos judeus que estudaram os manuscritos foram acusados de tentarem fazer com que o cristianismo se parecesse mais com o judaísmo, enquanto os acadêmicos cristãos foram acusados de fazer com que o judaísmo lembrasse o cristianismo.

O reverendo Jerome Murphy-O’Connor, um padre católico e famoso estudioso da Bíblia em Jerusalém, afirma que parte do atual fascínio pelos pergaminhos está enraizado no mesmo fenômeno responsável pela aquisição de mais de 40 milhões de volumes de “O Código da Vinci”.

“A população está cada vez mais interessada na história ‘não oficial’ da Bíblia nesta era de ceticismo”, afirma ele. “As pessoas estão cada vez mais se sentindo extremamente abandonadas pelos políticos e líderes religiosos. Elas acreditam que são enganadas, manipuladas e ludibriadas”, explica Murphy-O’Connor.

“É por isso que a própria igreja é a responsável pelo sucesso de ‘O Código da Vinci’ – porque ela mantém tanta coisa em segredo e desapontou tanta gente no que diz respeito à questão da pedofilia”, critica o sacerdote.

Porém, enquanto “O Código da Vinci” não passa de especulação envernizada por uma camada tênue de fatos, os Manuscritos do Mar Morto são autênticos.

Mas os pergaminhos continuarão fornecendo matéria-prima para aqueles que os tratam como um teste Rorschach religioso, no qual eles só vêem aquilo que querem, a despeito do amplo consenso acadêmico pelo contrário.

O fascínio e as controvérsias em torno dos pergaminhos não dão mostras de diminuir.

Charlesworth, do Seminário Teológico de Princeton, acredita que a teologia judaica da época de Jesus pode ter se baseado bastante nas idéias do zoroastrismo, uma religião monoteísta pré-islâmica da antiga Pérsia.

A Autoridade de Antiguidades Israelenses divulgará no final deste ano um relatório rejeitando a teoria amplamente aceita de que a antiga cidade de Qumran e os seus habitantes essênios escreveram os manuscritos. O documento afirmará que os pergaminhos foram depositados nas cavernas por judeus que fugiam da perseguição romana, afirma Yuval Peleg, um dos autores do relatório.

Ainda mais impressionante é a conclusão do estudo do chamado “Pergaminho de Cobre” e a sua referência a conjuntos de tesouros enterrados nas montanhas da Judéia.

Murphy-O’Connor diz que ele e a editora de estudos, Emile Puech, concluíram que as referências feitas no pergaminho ao tesouro não são de forma nenhuma simbólicas.

Puech acredita que o tesouro é real, e eu também acredito nisso”, afirma Murphy-O’Connor.

*Craig Nelson é um jornalista freelance a serviço da Cox Newspapers

Fonte: Cox Newspapers