A pouco mais de um ano das eleições presidenciais nos EUA, a religião se transformou em um fator decisivo entre os candidatos republicanos.

O presidente Barack Obama, que se apresenta à reeleição em novembro de 2012, atravessa um de seus momentos mais baixos nas pesquisas de popularidade. Este fato, junto com a lentidão da recuperação econômica, deu asas a todo tipo de candidato republicano.
Em junho começou a enxurrada de candidaturas conservadoras. Entre elas há protestantes dos ramos batista, luterano, metodista e evangélico; há católicos e há mórmons. Ainda há espaço para mais.

Em 1º de novembro vence o prazo para registrar-se para as primárias na Carolina do Sul, e são as primeiras que encerram a inscrição. Até esse dia podem se apresentar políticos que ainda não descartaram a nomeação, como a ex-governadora do Alasca Sarah Palin, associada no passado à fé pentecostal. As primárias começarão formalmente com os cáucus [reuniões intrapartidárias] de Iowa, que estão programados em princípio para 6 de fevereiro.

Se nas eleições nacionais os candidatos apelam para os eleitores moderados e independentes, nas primárias deverão conquistar o núcleo duro de eleitores de seu partido. Por isso, o campo republicano é neste momento um rosário de credos cristãos extremos. E o fundamentalismo cristão está presente com força notável nos três aspirantes mais bem colocados para ser os adversários de Obama na corrida pela Casa Branca: a congressista Michele Bachmann (foto abaixo), evangélica luterana que transformou os cargos que ocupou em altares dos quais combate o casamento gay; o governador do Texas, Rick Perry, abertamente contrário à separação entre Igreja e Estado; e o ex-governador de Massachusetts Mitt Romney, um pouco mais moderado, mas que provoca receios entre os eleitores protestantes porque é mórmon.

Esses candidatos cortejam o movimento ultraconservador Tea Party, que já demonstrou sua força em 2010 ao colocar numerosos representantes nas primárias legislativas e devolver ao Partido Republicano a maioria em uma das Câmaras do Congresso. Sua força foi crescendo desde então. Há apenas duas semanas esteve prestes a colocar os EUA à beira da moratória por se negar a aumentar o teto de endividamento público, contrariando o critério dos líderes moderados republicanos.

O Tea Party, que é a chave das primárias, nasceu em 2009 como reação ao crescente poder do governo central. Defende medidas drásticas como o corte dos programas de ajuda social e a eliminação dos impostos. Mas estudos recentes demonstram que nem tudo em seu ideário é política fiscal. Concretamente, os professores Robert Putnam, da Universidade Harvard, e David Campbell, de Notre-Dame, concluíram em uma pesquisa de cinco anos entre 3 mil eleitores que, além de ser um movimento com tons xenófobos, se dedica a colocar líderes altamente religiosos no governo. O Tea Party quer que a fé seja política e que o governo também seja de Deus.

Os acontecimentos mais recentes na pré-campanha – eleições de orientação em Iowa e diversos comícios em outros estados onde começarão as primárias, como New Hampshire – deram a Bachmann, Perry e Romney uma vantagem nas pesquisas sobre todos os outros. Mas quem são esses três candidatos e o que defendem? A congressista Bachmann ganhou no último dia 13 as primárias na localidade de Ames, em Iowa. Não foram eleições compulsórias. Só votaram 16.892 pessoas, das quais 4.832 a escolheram. Bachmann não obteve delegados antes das primárias. Apenas popularidade eleitoral e ser incluída no seleto clube dos favoritos republicanos. Com 55 anos, trabalha como legisladora desde 2001, primeiro em Minnesota e nos últimos quatro anos no Capitólio federal. Em Washington propôs sete leis, nenhuma delas aprovada. O que fez Bachmann em dez anos de vida política? Ativismo cristão. Sobretudo, declarou uma guerra cultural ao que chama de “estilo de vida homossexual”.

Em 2004 disse em um programa de rádio de Minnesota: “Será o assunto de maior importância para nossa nação nas próximas três décadas”. Foi uma verdadeira declaração de intenções. Naquela época Bachmann tentava aprovar uma emenda à Carta Magna de Minnesota para declarar inconstitucional o casamento gay. O problema é que naquele estado já havia uma lei que o proibia. Mas ela não queria que fosse somente ilegal. Precisava ser também inconstitucional. O Senado votou contra sua proposta.

Desde essa época, Bachmann já deixou claro que faria o que estivesse ao seu alcance para impedir que o casamento gay avançasse no país. Tinha uma referência em casa. Sua meio-irmã é lésbica. Em um discurso em 2004, referindo-se a ela, Bachmann disse: “É uma vida muito triste”. Em julho deste ano assinou um contrato com os eleitores, redigido pela organização conservadora The Family Leader, no qual, entre outras coisas, se compromete a lutar contra a promiscuidade; a erradicar a pornografia e a aprovar uma emenda constitucional nacional que defina o casamento como uma união heterossexual.

Essa emenda não é nova. Já foi apoiada por George W. Bush em 2004, sem sucesso. A diferença entre Bush e Bachmann é que o ex-presidente se opunha única e exclusivamente ao casamento gay. Bachmann, por sua vez, dada sua afiliação religiosa, está convencida de que os homossexuais são coisa do diabo. Não é uma metáfora. É algo em que ela acredita firmemente. No mesmo discurso de 2004, disse sobre a homossexualidade: “Faz parte de Satã”.

[img align=left width=300]http://n.i.uol.com.br/noticia/2011/06/02/michele-bachmann-eleicoes-eua-2012-1307052328022_300x420.jpg[/img]A candidata é protestante, luterana e evangélica. Converteu-se em cristã renascida em 1972. Desde então assumiu o trabalho de pregar o Evangelho. Afirma que recebe ordens diretas de Deus, que lhe disse para casar-se com seu marido, Marcus Bachmann, em 1978. Ambos frequentavam até há pouco tempo a paróquia evangélica luterana de Salem, em Stillwater, Minnesota, da qual ela se desligou oficialmente em junho, poucos dias antes de anunciar sua candidatura para as primárias republicanas.

Essa igreja, que Bachmann frequentou durante décadas, faz parte do sínodo evangélico luterano de Wisconsin, uma congregação de 390 mil pessoas. Embora nos EUA existam cerca de 80 milhões de evangélicos, estes pertencem a um ramo especialmente conservador. Os três pilares centrais de sua fé são a oposição ao aborto; a ideia de que a homossexualidade é um estilo de vida patológico, e a estranha convicção de que o papa católico é o “anticristo”.

Cinco séculos depois de Martinho Lutero, eles continuam interpretando ao pé da letra suas diatribes contra o papado. Como é lógico, essa crença criou numerosas tensões entre os evangélicos luteranos de Wisconsin e os 70 milhões de católicos que vivem nos EUA. Bachmann, que aspira a ser chefe de Estado e que, caso o consiga, teria de cuidar das relações de Washington com o Vaticano, passa por esse problema nas pontas dos pés e diz que, embora seja a doutrina de sua antiga Igreja, não crê que Bento 16 seja o demônio no sentido literal.

Continua intacta, entretanto, sua convicção de que os gays sim, o são. O sínodo ao qual pertencia sua Igreja equipara, em sua página na web, os homossexuais a “ladrões, estelionatários, assassinos, caluniadores, bêbados e violadores da vontade de Deus” e pede que os políticos “aprovem leis contra eles”. Afirma que ser gay é “uma escolha”, algo que se pode curar. Em consequência, o marido de Bachmann se dedica a isso em sua clínica de Minnesota.

Marcus Bachmann, formado em psicologia clínica, “trata” gays em seu consultório. E o faz por meio da oração. Apesar da oposição de sua esposa aos programas sociais do governo, desde que abriu a clínica recebeu o equivalente a 100 mil euros em subsídios do governo. Em uma gravação de um programa de rádio de 2010 o psicólogo diz que os homossexuais são “bárbaros”.

Menos beligerante contra os gays, mas igualmente firme em suas convicções religiosas, é o governador do Texas, Rick Perry, 61 anos, que acredita firmemente em um Estado confessional. O candidato declara que essa divisão é obra de uma Suprema Corte que está totalmente politizada e que é um instrumento nas mãos de uma grande conspiração social-democrata.

É o que ele explica em seu livro publicado no final do ano passado, “Fed Up!” [Farto]: “São esses tribunais que decidem, de forma rotineira, sem nenhuma opção de apelação, quando e onde podemos rezar a Deus, quando começa a vida humana, que anticoncepcionais podem ser vendidos, como podemos celebrar festividades religiosas, que nível de pornografia e vulgaridade devemos permitir, se devemos aceitar o matrimônio de pessoas do mesmo sexo…”.

Perry anunciou sua candidatura no último dia 13, mesma data em que Bachmann ganhou as primárias da pré-campanha de Iowa. A primeira pesquisa depois de sua entrada no campo eleitoral, realizada pela consultoria Rasmussen Reports, dá ao governador uma vantagem de 11 pontos sobre os demais candidatos. Ele obtém 29% das intenções de voto.

O evangelismo de Perry é na realidade uma forma de ativismo cristão contra o secularismo. Em 2005 ele defendeu na Suprema Corte sua firme vontade de que os dez mandamentos fossem expostos em duas tábuas diante do Capitólio de Austin (capital do Texas.). Ganhou aquele caso por uma maioria apertada de 5 votos a 4. O poder político é para Perry uma forma de fazer proselitismo religioso. Seu gabinete de governador foi um púlpito. Como governador, organizou em 6 de agosto passado uma jornada de orações em um estádio de Houston, da qual participaram 30 mil pessoas. O sermão do governador foi transmitido ao vivo em cerca de mil igrejas. Foi uma súplica a Deus para que acabasse com a crise econômica.

Perry foi um especialista, em seus dez anos como governador, em ignorar diretamente os 155 mil mórmons, 128 mil judeus e 114 mil muçulmanos de seu estado (são números de 2006, da Associação Histórica do Estado do Texas). Em abril, quando o Texas sofria uma das piores secas de que há memória, decretou dois dias de “orações oficiais” para pedir chuva. Como evangélico, Perry é contra o aborto.
Não só se opõe ao casamento gay, como em 2002 defendeu como “adequada” uma lei que penalizava qualquer ato de sodomia no Texas. A Suprema Corte a aboliu no ano seguinte. Em seu livro, insinua que, se não forem impostos limites à homossexualidade, esta poderá abrir caminho para “o incesto, a prostituição e o roubo”. E suas ideias sobre a mudança climática vão além do terreno pseudocientífico: afirma que Al Gore esconde dados sobre “o resfriamento mundial”.

Os credos de Bachmann e Perry deixam o terceiro candidato, o mais bem colocado segundo as pesquisas, como um moderado. Trata-se de Mitt Romney, 64 anos, que é mórmon. E não é o único seguidor da chamada Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias que se apresenta. Jon Huntsman, 51, ex-governador de Utah e ex-embaixador de Obama na China, também o é. Até há poucos anos, a ideia de um mórmon na Casa Branca era impossível. Na realidade, para muitos eleitores continua sendo.

Segundo uma pesquisa de junho da Universidade de Quinnipiac, entre 2 mil pessoas pesquisadas somente 35% gostariam de ter um presidente mórmon. Porcentagem não muito distante da dos que aceitariam um presidente ateu (24%) ou muçulmano (21%). A metade dos 14 milhões de mórmons que há no mundo reside nos EUA.

“Os cidadãos americanos, sobretudo os democratas, têm mais dúvidas sobre um mórmon na Casa Branca do que sobre seguidores de outras religiões”, afirma Peter Brown, diretor-adjunto do instituto de opinião de Quinnipiac. “O fato de menos da metade do eleitorado ter uma visão favorável dessa religião será um problema político para os governadores Mitt Romney e Jon Huntsman”.

Os evangélicos tradicionalmente receiam os mórmons, aos quais consideram uma seita. Mesmo assim, eles se definem como cristãos. Uma das maiores eminências na história do cristianismo, o professor da Universidade de Oxford Diarmaid MacCulloch, a denominou “religião de fronteira”, porque cresceu no século 19 nos EUA, no âmbito da conquista do oeste.

Seu fundador foi o chamado profeta Joseph Smith, que disse ter recebido a visita de um anjo que lhe entregou tábuas de ouro escritas no que chamou de “egípcio reformado”. Smith traduziu essas placas e o resultado foi o Livro de Mórmon, publicado em 1830, onde se narra como uma tribo de Israel cruzou o Atlântico e encontrou na América a terra prometida no século 6º antes de Cristo. Sobre os mórmons, que no início defenderam a poligamia, pesa uma certa fama de racismo. “Mas outras igrejas também têm uma história muito desigual no que diz respeito ao racismo”, afirma Scott Gordon, presidente da organização Fair, radicada em Utah e dedicada à defesa doutrinária do mormonismo. “Deveria ser reconhecido que nos EUA a maioria das igrejas não permitiam que os negros participassem das missas ou se sentassem nos mesmos templos que os brancos.”

Os mórmons fizeram da obediência uma virtude. Daí a pergunta despertada pela candidatura de Romney à Casa Branca: um governante mórmon deve prestar obediência cega à hierarquia de sua Igreja? “Os políticos eleitos que pertencem à Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias tomam suas próprias decisões e não têm por que estar de acordo nem entre eles nem com as posições oficiais da Igreja”, afirma Gordon, presidente da Fair. É como perguntar se John F. Kennedy, que era católico, devia obediência ao papa quando foi eleito presidente em 1961.

Mitt Romney também é o mais moderado da trinca de candidatos que estão na liderança. Afinal, governou Massachusetts, um dos estados mais progressistas do país, entre 2003 e 2007. Ali aprovou a cobertura de saúde universal para todos os cidadãos e manteve uma estrita separação entre sua fé e sua gestão. E isso é algo que não se pode dizer de Bachmann ou de Perry.

[b]Rick Perry
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Sucessor de George W. Bush no governo do Texas desde 2001, ganhou três eleições seguidas. É célebre por considerar seu antecessor no cargo como progressista demais em questões fiscais. Metodista e evangélico, se opõe firmemente a separar o Estado de suas crenças religiosas. No governo do Texas decretou dias oficiais de oração e convocou atos de oração com multidões. Entre seus maiores sucessos, ele mesmo conta uma vitória diante da Suprema Corte que em 2005 lhe permitiu continuar exibindo os dez mandamentos cristãos em duas tábuas de mármore diante do Capitólio de Austin. Em um livro de 2010 acusa a Suprema Corte de ser um instrumento para impor valores políticos seculares na vida norte-americana.

[b]Mitt Romney
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Apresenta-se pela segunda vez nas primárias e desde junho foi o mais bem colocado nas pesquisas. Dirigiu os Jogos Olímpicos de Inverno em Salt Lake City em 2002 e foi governador de Massachusetts entre 2003 e 2007. Evita falar publicamente de sua fé, o mormonismo. O fundador dessa religião, o profeta Joseph Smith, morreu vítima de tiros em 1844 depois de ter apresentado sua candidatura à presidência do país. Desde então, as suspeitas pela discriminação contra os negros e pela prática – já superada – da poligamia dificultaram o acesso de um mórmon à Casa Branca. Segundo pesquisas recentes, somente 35% dos americanos gostaria de ter um presidente mórmon, porcentagem próxima da registrada pelos muçulmanos.

[b]Michele Bachmann
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Congressista desde 2001, primeiro em Minnesota e há quatro anos na Câmara de Deputados federal. Lançou sua campanha eleitoral em junho, dias depois de abandonar formalmente sua paróquia, a Igreja Evangélica Luterana de Salem. Considera que o casamento gay “é um assunto de grande importância para o país” e que definirá a política das próximas décadas. Educada como luterana, em sua paróquia se ensina como doutrinaria que o papa é a encarnação do “anticristo”, o que lhes granjeou o receio dos 70 milhões de católicos dos EUA. A candidata se distanciou recentemente dessa afirmação. Seu marido, o médico Marcus Bachmann, tem uma clínica psicológica na qual diz curar homossexuais através da oração.

[b]Fonte: El País[/b]