Cerca de mil pessoas, entre as quais imigrantes hispânicos, membros do clero católico, rabinos e ativistas marcharam pelo centro da cidade agrícola de Postville, Iowa, no domingo, e realizaram uma manifestação diante de uma fábrica de processamento kosher de carne que sofreu uma batida das autoridades de imigração em janeiro.

A marcha foi convocada em protesto contra as condições de trabalho na fábrica, a Agriprocessors, e para apelar por um projeto de lei que confira status legal aos imigrantes ilegais.

Os rabinos, quatro de Minnesota e Wisconsin, também participaram da marcha para divulgar suas propostas de revisão da certificação dos alimentos kosher, a fim de incluir padrões de ética empresarial e tratamento dos trabalhadores.

A marcha gerou um contraprotesto de cerca de 150 pessoas, organizado pela Federação por Reforma da Imigração Americana, uma organização que se opõe aos imigrantes ilegais e às propostas pára legalizar sua situação.

Em dado momento, afloraram tensões enquanto as duas partes gritavam slogans uma em direção à outra, usando megafones, de lados opostos da rua principal dessa pequena cidade de 2,2 mil moradores.

“Chega de batidas!”, gritavam os manifestantes, enquanto seus rivais do outro lado da rua gritavam: “Ilegais, vão embora”. Nenhum incidente de desordem pública foi reportado pela polícia.

O debate quanto aos padrões da certificação kosher se intensificou desde a batida na fábrica em 12 de maio, durante a qual 389 imigrantes ilegais, a maioria dos quais vindos da Guatemala, foram detidos.

Denúncias de muitos desses trabalhadores quanto a violações generalizadas das leis trabalhistas, na fábrica, receberam destaque na imprensa judaica, gerando discussões sobre um possível boicote pelos judeus aos produtos de carne bovina e de aves preparados na fábrica.

A Agriprocessors, controlada e operada por Aaron Rubashkin e sua família, é a maior fábrica de processamento de carne kosher nos Estados Unidos.

Seus produtos, vendidos com as marcas Aaron’s Best e Rubashkin, entre outras, dominam o mercado americano de carne bovina e de aves kosher. A fábrica foi autuada por violações das leis estaduais e trabalhistas, antes da batida, entre as quais a proteção inadequada à segurança dos trabalhadores e horas extras não pagas.

Desde a batida, os imigrantes com idade inferior 18 anos, a idade mínima para o emprego em fábricas de processamento de carne em Iowa, disseram que trabalhavam por longas horas na Agriprocessors, muitas vezes à noite.

O gado e as aves da Agriprocessors são mortos e empacotados usando procedimentos especificados pelas severas leis dietéticas judaicas, e são certificados por rabinos que são autoridades reconhecidas quanto à comida kosher.

Em 2006, depois de uma reportagem publicada no jornal judaico Forward sobre as condições insalubres de trabalho na Agriprocessors, uma comissão de inquérito organizada por líderes judaicos conservadores criticou as operações da fábrica e pediu por mais treinamento de segurança e inspeções reforçadas de parte das autoridades estaduais.

Um membro dessa comissão, o rabino Morris Allen, de Mendota Heights, Minnesota, propôs um novo sistema de certificação kosher que incluiria a consideração de condições de trabalho em fábricas onde os alimentos são produzidos.

O rabino Harold Kravitz, da sinagoga Adat Jeshurun, em Minnetonka, Minnesota, disse no domingo que as questões de saúde e segurança que a comissão apontou não pareciam ter sido tratadas pelos dirigentes da fábrica.

Falando aos manifestantes, diante da fábrica, Kravitz disse que as leis judaicas que orientam o processamento kosher de animais não deveriam ser separadas dos princípios éticos judaicos.

“A conduta própria dos negócios e o tratamento correto dos trabalhadores também são importantes valores judaicos”, disse Kravitz. Ele e diversos outros ativistas comunitários judaicos se reuniram no domingo com Chaim Abrahams, o principal executivo da fábrica.

Aaron Goldsmith, morador de Postville que participou da reunião, disse que Abrahams reportou que cerca de 360 dos trabalhadores detidos haviam recebido todos os pagamentos que lhes eram devidos e que a Agriprocessors estava realizando entregas diária de alimentos a cerca de 30 famílias de imigrantes em Postville.

Ainda que executivos da Agriprocessors tenham em larga medida evitado falar com a imprensa, Getzel Rubashkin, 24 anos, neto de Aaron Rubashkin, saiu da fábrica e se aproximou dos manifestantes.

“Não estamos discutindo aqui”, disse Rubashkin, que disse trabalhar na fábrica mas não representar a Agriprocessors, e acrescentou que estava falando apenas em nome pessoal.

Ele disse que a administração da empresa “trata bem os trabalhadores, e paga bem a eles, e não há outra política. A empresa não está do lado oposto ao de nenhuma dessas pessoas”, ele afirmou, se referindo aos imigrantes que estavam alinhados por trás das faixas e cartazes da manifestação.

Rubashkin disse que muitos imigrantes ilegais haviam sido contratados porque eles haviam apresentado documentos falsificados que descreveu como “convincentes”.

“O alto número de trabalhadores ilegais que tínhamos aqui é prova da qualidade dessas falsificações, desses documentos”, disse Rubashkin. Ele disse que a empresa não havia criticado as autoridades de imigração pela batida.

“Obviamente algumas dessas pessoas estavam apresentando falsos documentos”, ele afirmou. “As autoridades de imigração de alguma forma perceberam e fizeram seu dever: vieram e capturaram essas pessoas. Deus as abençoe por isso”, ele afirmou.

Fonte: The New York Times