Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito entregou carta em Washington e pediu respeito à soberania brasileira
Representantes da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito estiveram em Washington, nos Estados Unidos, na última semana, para levar a parlamentares americanos um alerta sobre possíveis tentativas de interferência externa nas eleições presidenciais brasileiras de outubro. O grupo entregou uma carta na qual manifesta preocupação com ações do governo norte-americano que, segundo os evangélicos, podem pressionar instituições brasileiras e afetar o processo eleitoral.
A iniciativa ocorreu em meio ao aumento das tensões entre Brasil e Estados Unidos e às discussões sobre possíveis medidas da administração do presidente Donald Trump relacionadas ao processo eleitoral brasileiro. Segundo a carta, o grupo considera necessário preservar a autonomia das instituições brasileiras e impedir que decisões políticas tomadas no exterior interfiram na escolha dos eleitores brasileiros.
Durante a passagem por Washington, os representantes da Frente levaram o documento aos gabinetes do senador Raphael Warnock, do senador Adam Schiff e da deputada Hillary Scholten. Os três parlamentares possuem trajetórias relacionadas à defesa de instituições democráticas e, no caso de Warnock, também uma forte ligação com a tradição cristã.
Warnock é pastor titular da Ebenezer Baptist Church, em Atlanta, igreja historicamente associada ao movimento pelos direitos civis e à trajetória do pastor Martin Luther King Jr. Adam Schiff é judeu e já presidiu o Comitê de Inteligência da Câmara dos Representantes, enquanto Hillary Scholten teve atuação como auxiliar em uma igreja cristã reformada em Grand Rapids.
Carta alerta contra possível interferência estrangeira
No documento, os representantes da Frente afirmam estar preocupados com informações sobre uma possível atuação do governo Trump em relação às eleições brasileiras. A preocupação está relacionada, entre outros pontos, a reportagens que indicaram a possibilidade de o governo americano enviar funcionários a Brasília para questionar a integridade do sistema eleitoral brasileiro.
Para o grupo, eventuais questionamentos sobre o processo eleitoral devem respeitar a soberania brasileira e ser tratados dentro dos mecanismos institucionais do próprio país. A carta defende que instituições democráticas brasileiras tenham liberdade para conduzir o processo eleitoral sem pressões externas.
A Frente também solicitou aos parlamentares americanos a criação de um canal permanente de diálogo, com o objetivo de discutir questões relacionadas à democracia brasileira e às relações entre os dois países.
Grupo também critica tarifas impostas pelos EUA
A carta entregue em Washington não se limitou às eleições. Os representantes dos evangélicos também abordaram as recentes medidas tarifárias adotadas pelos Estados Unidos que afetam produtos e exportações brasileiras.
Segundo o grupo, decisões econômicas que impactam o comércio entre os dois países deveriam ser tomadas com base em critérios econômicos e técnicos, e não utilizadas como instrumentos de pressão política sobre questões internas do Brasil.
A manifestação ocorre em um momento de tensão nas relações entre Brasília e Washington, especialmente diante de discussões sobre tarifas e declarações de autoridades americanas envolvendo questões políticas brasileiras.
“Maior democracia da América do Sul”
Outro ponto destacado pelos representantes brasileiros é a importância do Brasil no cenário regional. A carta apresenta o país como a maior democracia da América do Sul e ressalta que a preservação de suas instituições interessa não apenas aos brasileiros, mas também à estabilidade democrática da região.
O grupo argumenta que pressões externas podem fragilizar instituições e aumentar a instabilidade política, razão pela qual defende a cooperação entre Brasil e Estados Unidos sem interferência direta no processo eleitoral.
A Frente pediu ainda que os parlamentares americanos mantenham diálogo com organizações brasileiras e contribuam para fortalecer a independência das instituições democráticas do país, em vez de apoiar iniciativas que possam ser interpretadas como interferência nas eleições.
Evangélicos destacam que não representam todo o segmento
A iniciativa também chama atenção para a diversidade política existente entre os evangélicos brasileiros. Na carta, os representantes da Frente fazem questão de destacar que lideranças evangélicas que apoiam publicamente o senador Flávio Bolsonaro não representam a totalidade dos evangélicos do país.
A afirmação procura reforçar que o segmento evangélico brasileiro não possui uma posição política única. Embora parte expressiva das lideranças religiosas tenha manifestado apoio a setores conservadores da política nacional, existem também grupos evangélicos que defendem posições diferentes e participam ativamente do debate público a partir de outras perspectivas.
A Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito surgiu em 2016 como um movimento de evangélicos progressistas e tem atuação voltada à defesa do Estado Democrático de Direito, dos direitos previstos na Constituição e de pautas relacionadas à justiça social.
Defesa da soberania e da democracia
Ao levar a discussão para Washington, os representantes do grupo procuram inserir uma parcela do segmento evangélico brasileiro no debate internacional sobre a relação entre os governos dos dois países e o futuro das instituições democráticas brasileiras.
A principal preocupação apresentada na carta é que decisões tomadas por autoridades estrangeiras não ultrapassem os limites da diplomacia e acabem interferindo diretamente na escolha dos brasileiros nas urnas.
O grupo defende que eventuais questionamentos sobre as eleições sejam tratados por meio das instituições brasileiras e dentro dos mecanismos legais existentes. A proposta apresentada aos parlamentares americanos é de diálogo e cooperação, mas sem intervenção externa.
A movimentação também evidencia como a relação entre religião, política e democracia continua sendo um tema relevante dentro do próprio meio evangélico. Enquanto diferentes líderes e grupos religiosos assumem posições distintas sobre o cenário político brasileiro, a Frente busca apresentar aos interlocutores americanos uma perspectiva evangélica favorável à preservação da autonomia institucional do Brasil.
Ao final da carta, os representantes reforçam a importância de proteger as instituições brasileiras contra pressões externas e defendem a construção de uma relação permanente com parlamentares americanos para tratar de questões democráticas.
A viagem a Washington, portanto, colocou representantes de um segmento específico do evangelicalismo brasileiro diretamente em contato com integrantes do Congresso dos Estados Unidos. A mensagem levada pelo grupo foi clara: a defesa da democracia brasileira, segundo a Frente, deve passar pelo respeito à soberania nacional e pela rejeição a qualquer tentativa de interferência estrangeira no processo eleitoral.
Folha Gospel com informações de O Globo e Diário do Centro do Mundo






