Catedral de St. Paul, em Londres. (Foto: Reprodução)
Catedral de St. Paul, em Londres. (Foto: Reprodução)

Acordo de quatro anos entre o templo anglicano e a casa noturna Fabric prevê eventos de música contemporânea; críticos questionam o uso de um dos principais espaços cristãos históricos de Londres

A Catedral de St. Paul, em Londres, assinou um acordo de quatro anos com a casa noturna Fabric para promover eventos de música contemporânea dentro do histórico templo anglicano. A parceria prevê apresentações a partir de outubro e provocou críticas de cristãos e de representantes ligados à preservação histórica, que questionam a realização de eventos associados à cultura de clubes em um espaço considerado sagrado.

O primeiro show está marcado para 29 de outubro, embora o artista que se apresentará ainda não tenha sido anunciado. Pelo acordo, a Fabric terá exclusividade para promover esse tipo de evento na catedral durante os quatro anos de parceria.

Segundo os organizadores, a programação será formada por artistas de diferentes origens e estilos musicais, escolhidos também pela relação de seus trabalhos com a acústica, a arquitetura e a atmosfera do local. A proposta é utilizar a música como uma forma de aproximar novos públicos da catedral.

Sandra Lynes Timbrell, diretora de engajamento de visitantes da St. Paul, afirmou que a iniciativa pretende apresentar o templo a pessoas que ainda não o conhecem.

“Esses eventos exibem talentos de classe mundial e criam experiências inesquecíveis para o público em um dos espaços mais icônicos de Londres”, afirmou.

O cofundador da Fabric, Cameron Leslie, também defendeu a iniciativa e classificou a parceria como uma aproximação incomum entre dois ambientes distintos da capital britânica. A casa noturna já havia promovido apresentações na catedral anteriormente, incluindo shows de RY X e Patti Smith em anos recentes.

Críticas ao uso do espaço sagrado

A decisão, porém, gerou forte reação entre pessoas que consideram inadequado transformar uma catedral histórica em local para eventos associados à vida noturna.

Um dos principais críticos é Peregrine Hood, presidente da Nelson Society e descendente do irmão do almirante britânico Horatio Nelson, enterrado na cripta da St. Paul. Para ele, a iniciativa representa uma perda de referência sobre o caráter religioso do espaço.

“Será que nada mais é sagrado? Que reflexão triste sobre o estado atual da integridade espiritual e do cristianismo. O fato de a Catedral de São Paulo se posicionar dessa maneira é profundamente deprimente.”

Hood ressaltou ainda que a questão vai além da memória de Nelson e envolve o significado histórico e religioso da própria catedral.

“Isso vai muito além de Nelson. A Catedral de São Paulo é um dos grandes espaços sagrados do cristianismo e um local de enorme importância para nossa vida e história nacional.”

Outro integrante da Nelson Society, Andy Smith, afirmou que a realização dos eventos representa uma afronta à memória das pessoas sepultadas ou homenageadas no local. A entidade pediu que a catedral reveja o acordo.

A localização dos eventos também aumentou a controvérsia, já que Nelson está enterrado na cripta diretamente abaixo da região central da catedral. A administração da St. Paul, entretanto, afirma que os eventos serão realizados com o público sentado e que não ocorrerão dentro da cripta onde está o túmulo do almirante.

Debate reacende discussão sobre eventos em igrejas

A polêmica em Londres acontece depois de controvérsias semelhantes envolvendo outras catedrais britânicas. Em 2024, a Catedral de Canterbury passou a receber eventos conhecidos como silent discos, que foram apelidados pelos críticos de “rave in the nave” (“rave na nave”).

Uma petição contra as festas reuniu mais de 1.600 assinaturas. O organizador, Cajetan Skowronski, argumentou que esse tipo de atividade não ajudaria a aproximar os jovens da fé cristã.

Segundo ele, os eventos poderiam transmitir a mensagem de “que o entretenimento merece mais nossa atenção do que Deus”.

Eventos semelhantes também foram anunciados em outros templos históricos do Reino Unido, incluindo Beverley Minster, Sheffield Cathedral, Hereford Cathedral, Chester Cathedral, Ely Cathedral, Salisbury Cathedral, St Albans Cathedral e Truro Cathedral.

Críticas também apontam histórico da Fabric

Além da natureza dos eventos, críticos destacam o histórico da Fabric, uma das casas de música eletrônica mais conhecidas de Londres.

O clube teve sua licença revogada em 2016 pelo conselho de Islington após problemas relacionados ao uso de drogas, em um período no qual dois jovens de 18 anos morreram em incidentes relacionados a drogas dentro da casa noturna. A Fabric voltou a funcionar em 2017 após adotar novas condições de segurança e funcionamento.

O episódio levou críticos cristãos a questionarem se a aproximação entre uma instituição religiosa e uma casa noturna representa uma forma adequada de ampliar o acesso do público às catedrais.

O teólogo Jacob Phillips, que afirmou ter participado da cena rave antes de se tornar cristão, criticou a ideia de que esse ambiente possa oferecer a mesma transformação buscada pela fé. Ele escreveu que a cultura das raves prometia uma espécie de redenção, mas acabou sendo marcada, em muitos casos, por drogas e violência.

O ex-capelão da rainha Elizabeth II, Gavin Ashenden, foi ainda mais contundente e classificou a parceria como um sinal de degradação da identidade cristã da instituição.

Catedral aposta em novos públicos

Apesar da repercussão negativa, a administração da St. Paul mantém a defesa da parceria. A expectativa é que a realização dos shows apresente o edifício a pessoas que normalmente não frequentariam a catedral.

A instituição já possui histórico de utilização do espaço para apresentações musicais. Além dos eventos promovidos pela Fabric, artistas como RY X e Patti Smith já se apresentaram no local.

A Catedral de St. Paul possui ainda forte importância na história religiosa e cultural britânica. O templo é associado a acontecimentos marcantes da história do país, incluindo o funeral de Winston Churchill e o casamento do então príncipe Charles com Diana Spencer. Também recebeu Martin Luther King Jr., que pregou no local em 1964.

Construída após o Grande Incêndio de Londres de 1666, a atual catedral foi projetada por Christopher Wren e concluída em 1710. O edifício permanece como um dos principais símbolos religiosos e históricos da capital britânica.

O acordo com a Fabric, portanto, coloca a St. Paul no centro de um debate mais amplo sobre como igrejas e catedrais históricas podem dialogar com a cultura contemporânea sem perder a identidade e a função religiosa desses espaços

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