A maioria dos italianos (51%) avalia que a Igreja Católica deve dar sua opinião sobre normas discutidas ou aprovadas pelo Parlamento, de acordo com pesquisa publicada nesta terça-feira pelo principal diário da Itália.

Uma parte dos entrevistados (16%) diz até que o Vaticano pode condicionar a votação de deputados e senadores, se considerar isso necessário. Os que se dizem contra o Vaticano se ocupar de leis discutidas no Parlamento são 40%.

“Os italianos concordam, de modo geral, com uma intervenção, se o tema for de interesse da Igreja. Mas há forte contraste a respeito da oportunidade deste comportamento”, avalia Renato Manheimer, responsável pela pesquisa, encomendada pelo jornal Corriere della Sera.

A sondagem foi realizada na onda da polêmica provocada por um projeto de lei do governo de centro-esquerda italiano, que visa reconhecer legalmente casamentos não tradicionais, inclusive entre pessoas do mesmo sexo.

Perigo

A Igreja italiana tem se mobilizado de diversas formas nos últimos meses contra o projeto de lei, que ainda nem foi discutido pelo Parlamento. Com uma carta, divulgada na semana passada, a conferência episcopal italiana deixa bem claro que os seguidores da religião católica devem ser contrários a qualquer forma de ameaça à família.

O documento fornece também diretrizes bem claras aos políticos católicos, que, de acordo com a carta, não devem de forma alguma votar leis que coloquem em risco a família tradicional.

Para o dia 12 de maio, enquanto o papa Bento XVI estiver no Brasil, os católicos italianos convocaram uma grande manifestação em Roma, em defesa da família.

Protesto

A atitude da Igreja Católica provocou reações negativas. Para protestar contra o que considera como uma “ingerência” da Igreja, um grupo de intelectuais, que publica uma conceituada revista de análise política chamada Micromega, lançou dois apelos na semana passada.

Um deles é assinado por leigos, entre eles nomes de grande destaque como o escritor Umberto Eco, o prêmio Nobel Dario Fo, os cineastas Bernardo Bertolucci e Mario Monicelli.

Monicelli descreveu sua assinatura como uma maneira de protestar contra “a atitude subalterna da política italiana diante da posição intransigente da Igreja Católica”.

O outro apelo leva as assinaturas de católicos que não concordam com a linha do Vaticano quanto à moral sexual, à política familiar e a questões de bioética.

Imposto de renda

Os dois abaixo-assinados pedem que as doações à Igreja Católica, que podem ser deduzidas do imposto de renda dos italianos, passem a ser destinadas à Igreja Valdesa, um ramo da Igreja Protestante.

“Ao escolher os valdeses, deixamos claro que não somos contra a religião, mas queremos evidenciar uma posição contra a hierarquia da Igreja Católica e sua intransigência”, afirma à BBC Brasil o porta-voz do grupo, Emilio Carnevali.

Segundo Carnevali, 80% dos italianos doam 0,8% do que devem pagar de imposto de renda para a Igreja Católica, que tem nesses recursos uma de suas maiores fonte de financiamento.

O porta-voz do grupo diz que 10% dos italianos não escolhem como a dedução de 0,8% do imposto deve ser empregada. Nesses casos, o Estado repassa os recursos para o Vaticano em forma de manutenção e reforma de igrejas. O restante dos contribuintes dedica a dedução para outras religiões.

“Se a pessoa não indica para quem deseja destinar aquela quantia, ela vai automaticamente para a Igreja Católica”, diz Carnevali.

Para o porta-voz, a escolha da Igreja Valdesa se deve ao fato de ela ter uma atitude mais aberta do que a Igreja Católica em questões como a homossexualidade, eutanásia e divórcio, ao contrário da Igreja Católica.

As assinaturas serão recolhidas até o final de maio, quando começam as entregas das declarações do imposto de renda. O grupo pretende encerrar a campanha com uma manifestação pública.

Fonte: Estadão