O país ocupa atualmente a 4ª posição na Lista Mundial da Perseguição de 2026 da organização Portas Abertas
Dois importantes líderes da Igreja de Cristo do Sudão (SCOC), sequestrados na região das montanhas Nuba, no estado de Kordofan do Sul, foram libertados. Os pastores Yaqob Ibrahim Tia e Zakaria Suliman Jana haviam sido capturados por membros dissidentes do Exército de Libertação do Povo do Sudão-Norte (SPLA-N) e agora estão em segurança.
A libertação ocorre em meio a uma escalada alarmante de violência e ataques direcionados contra minorias religiosas no Sudão. O conflito armado em em andamento continua a deteriorar as condições de segurança na região, gerando grande preocupação sobre a integridade de líderes comunitários locais e a liberdade de culto no país.
Os detalhes das abduções e da libertação nas montanhas Nuba
O pastor Yaqob Ibrahim Tia foi raptado em 23 de julho e libertado no dia 28 de julho acompanhado por familiares. Entre os libertados com ele estavam seus dois filhos, de 17 e 20 anos, um sobrinho de 15 anos e Daniel Ibrahim Tia, irmão do pastor e do padre católico Fadi Ibrahim Tia. Já o pastor Zakaria Suliman Jana foi sequestrado na manhã de 31 de julho, sendo libertado logo em seguida, no dia 1º de agosto.
Os sequestros foram atribuídos a facções dissidentes do grupo rebelde SPLA-N que atuam em Heiban, embora os termos da libertação e os motivos exatos dos raptos não tenham sido revelados. Após um encontro de entrega assistido por líderes eclesiásticos da região, o pastor Tia expressou imensa gratidão e criticou fortemente os confrontos internos entre as facções do SPLA-N. O líder religioso fez um apelo público para que as lideranças políticas renunciem à violência e busquem a paz, apontando ainda que o próprio governo do Sudão é suspeito de fomentar esses conflitos locais.
A escalada de violência contra líderes cristãos no Sudão
A região das montanhas Nuba, um reduto histórico do SPLA-N, enfrenta um aumento expressivo de hostilidades contra a comunidade cristã. Embora a área controlada pelos rebeldes seja fechada para os meios de comunicação, relatos que escapam da região indicam que os confrontos internos já provocaram o deslocamento forçado de centenas de civis, compostos majoritariamente por mulheres, crianças e idosos.
A gravidade da situação se reflete em outros episódios violentos registrados recentemente na província de Kordofan do Sul:
- Pastor Adel Idris Jongool: Da Igreja Episcopal, foi morto a tiros por milícias dissidentes do SPLA-N em 24 de julho, na unidade administrativa de Dabi, distrito de Heiban.
- Padre católico e segurança: Assassinados em 19 de junho na paróquia de Holy Cross, em Kauda, por militantes do mesmo grupo dissidente. Outro guarda também foi baleado no atentado, mas sobreviveu após receber tratamento médico em um hospital próximo.
O cenário político e a perseguição religiosa no país
O Sudão é um país majoritariamente islâmico, onde os muçulmanos representam 93% da população. Os praticantes de religiões tradicionais de matriz étnica somam 4,3%, enquanto os cristãos constituem uma minoria de apenas 2,3%. O país ocupa atualmente a 4ª posição na Lista Mundial da Perseguição de 2026 da organização Portas Abertas, o que evidencia as extremas dificuldades enfrentadas por minorias de fé no território sudanês.
A crise humanitária e a violência religiosa se intensificaram após o início do confronto militar em abril de 2023 entre as Forças Armadas do Sudão (SAF), lideradas pelo general Abdelfattah al-Burhan, e o grupo paramilitar Forças de Apoio Rápido (RSF), comandado por Mohamed Hamdan Dagalo. Ambas as facções possuem orientação islâmica e realizam ataques contra cristãos deslocados sob a acusação de apoiarem as forças rivais. De acordo com o Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUR), a guerra civil generalizada já resultou na morte de dezenas de milhares de civis e no deslocamento de mais de 12 milhões de pessoas.
Apesar de um breve período de avanços na liberdade religiosa após a queda da ditadura islâmica de Omar al-Bashir em 2019 — quando o governo de transição chegou a abolir leis de apostasia que puniam a conversão religiosa com a pena de morte —, o golpe militar de 25 de outubro de 2021 restabeleceu o temor da imposição rigorosa da lei Sharia e da perseguição patrocinada pelo Estado.







