Ex-presidente Lula
Ex-presidente Lula

Na tentativa de aproximar-se dos eleitores evangélicos, maior base de apoio de Jair Bolsonaro nas eleições de 2018, o ex-presidente Lula disse que o PT “não pode acreditar na história de que os evangélicos e as evangélicas são como se fossem um gado” e deve lembrar o segmento de que a maioria dos fiéis, pobre e periférica, foi beneficiada por políticas públicas iniciadas pelos governos petistas.

Em encontro virtual de mais de duas horas com evangélicos, no sábado, 27, o petista propôs a criação de “um momento evangélico” na TV e na rádio do partido. Seria uma forma de reverter a falsa premissa de que o verdadeiro cristão não vota na esquerda, martelada por vários dos megapastores brasileiros, hoje alinhados ao presidente Jair Bolsonaro.

Hoje, nenhum líder de uma igreja grande está ao lado de Lula. A bola era mais dividida antes —o próprio Malafaia, que o apoiou em 1989 e 2002, é exemplo disso.

O bispo Edir Macedo é outro termômetro para o debate eleitoral no campo religioso.

Segundo Lula, é importante oferecer uma contranarrativa “porque há muito fetiche, há muita queimação, há muita maldade, contra e a favor, há muito disse-que-disse”.

Em 2002, o PT distribuiu a Carta aos Evangélicos na porta de igrejas. No panfleto, o então presidenciável dizia possuir “esperança cristã” e fazia vários acenos a adeptos dessa religião, que por anos escutaram pregações que o comparavam a um demônio que fecharia igrejas se assumisse o poder.

Deu certo em parte. Em 2006, estima-se que Lula chegou a ter maioria dos votos evangélicos no segundo turno, contra o tucano Geraldo Alckmin. Transferiu a Dilma Rousseff, sua sucessora, alianças que solidificou com megapastores ao longo de dois mandatos. Edir Macedo foi um deles.

Em 2018, contudo, a maioria do segmento —da base à cúpula pastoral— preferiu Bolsonaro ao petista Fernando Haddad. Sete em cada dez eleitores evangélicos votaram no católico que soube se firmar como candidato preferencial dos pastores, segundo projeção do Datafolha.

Ponto importante sobre a reunião de sábado: todos os convidados na sala virtual já eram simpáticos ao PT.

Mas pastores com projeção nacional, donos de horários na grade televisiva e, mais recentemente, catapultados pelas redes sociais, muitas vezes servem de bússola para peixes menores no meio.

Confortável no papel de porta-voz do grupo, Malafaia se tornou uma das faces mais conhecidas para os seculares (como evangélicos se referem a quem é de fora da crença deles).

Não está só, contudo. Nomes como André Valadão (Igreja Batista da Lagoinha), popular entre os jovens e com forte presença nas redes sociais, ajudam a disseminar o bolsonarismo nas bases.

Fato é que a força dos pastores que se assumem de esquerda é reduzida, e Lula ainda precisa furar essa bolha se quiser ganhar mais espaço nas igrejas.

Para tanto, sua campanha não descarta diminuir os decibéis para pautas identitárias e focar a economia, repetindo avanços da era petista —mais emprego e renda, menos fome e pobreza, faculdades mais acessíveis etc.

O ex-presidente discursou ao lado da líder nacional do PT, Gleisi Hoffmann, e da deputada Benedita da Silva, há décadas o principal quadro evangélico do partido. Na primeira parte da reunião, mais ouviu do que falou. Cerca de 15 evangélicos selecionados pela legenda se revezaram nas apresentações.

“O medo do futuro transforma nosso dia a dia no soluçar de dor, […] a extrema-direita zombou do nosso Deus. Mentiram descaradamente, dividiram a gente, cooptaram, criaram uma sucessão de fake news”, disse o pastor Ariovaldo Ramos, veterano do evangelismo progressista.

Com a palavra, Lula lembrou das sondagens eleitorais, Datafolha incluso, que têm registrado empate técnico entre ele e Bolsonaro, seu provável arquirrival em 2022.

“Nunca acreditei nessa história de que os evangélicos iriam votar não sei onde. Acho que os evangélicos votam naqueles que tiverem capacidade de convencer eles, que fizerem seus argumentos chegarem a eles”, afirmou.

“Lamentavelmente, tivemos em 2018 uma campanha avessa, com fake news, com muita mentira, coisa que a gente não estava tão acostumado. E nós aprendemos, nós aprendemos. Eu acompanho pesquisa todo dia e não vejo Bolsonaro ganhar de mim nos evangélicos, eu não vejo. E isso porque ele já tá em campanha, e eu não tô ainda.”

Fonte: Folha de S. Paulo


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