Casal de missionários norte-americanos Steve e Robin Campbell com índios da etnia jamamadi, no sul do Amazonas. (Foto: Divulgação)
Casal de missionários norte-americanos Steve e Robin Campbell com índios da etnia jamamadi, no sul do Amazonas. (Foto: Divulgação)

Fabiano Maisonnave (Manaus) – A Funai interrogou nesta segunda-feira (31) um missionário norte-americano após ele ter entrado ilegalmente na terra dos índios isolados da etnia hi-merimã, perto de Lábrea, no sul do Amazonas.

O órgão indigenista acionará o Ministério Público Federal e a Polícia Federal para investigar o caso. 

Steve Campbell, financiado pela Greene Baptist Church, fez uma incursão no mês passado à Terra Indígena Hi-Merimã, habitada por cerca de cem indígenas isolados. Ele esteve em acampamentos abandonados que haviam sido recém-localizados pela Funai, na região do igarapé Canuaru.

Para conseguir chegar até o local, o missionário usou ao menos um dos índios da etnia jamamadi que haviam participado da expedição mais recente da Funai, em setembro. 

A visita coincide com sinalizações do governo Jair Bolsonaro (PSL) de que haverá mudanças na atual política de não contato com índios isolados. Em 7 de dezembro, a ministra de Mulheres, Família e Direitos Humanos, a pastora Damares Alves, disse que o objetivo será que eles se integrem à sociedade. 

Há três décadas, a Funai mantém a diretriz de não contato com os isolados. Foi uma revisão da estratégia adotada pela ditadura militar, quando vários povos indígenas perderam até dois terços de sua população ao contraírem doenças como sarampo, ao mesmo tempo em que foram forçados a se deslocar para dar lugar a estradas e projetos de colonização. 

“Caso se configure, na investigação, que existiu interesse de fazer contato, de se utilizar da relação dele com outros índios para se aproximar dos isolados, ele pode ser imputado por crime de genocídio ao expor deliberadamente a segurança e a vida dos hi-merimãs”, afirma Bruno Pereira, coordenador geral de índios isolados e de recente contato da Funai.

“A memória imunológica deles não está preparada para uma simples gripe ou conjuntivite”, explica Pereira. “Um outro ponto são contatos conduzidos por pessoas que não respeitam a autodeterminação desses povos e suas formas de vida. Historicamente, isso tem acarretado em interferências violentas  em suas relações vitais com o ambiente, com as relações familiares, com aquilo que acreditam.”

De teologia conservadora, Campbell é bastante conhecido na região de Lábrea, cortada pelo rio Purus e habitada por cerca de 9.000 indígenas de oito etnias, entre os quais os hi-merimãs, o único povo isolado. Ele convive com os jamamadis desde 1963, quando chegou à região ainda criança trazido pelos pais, também missionários cristãos. 

O norte-americano tem uma casa na aldeia São Francisco, a mais populosa, onde vive parte do ano com a mulher, Robin Campbell. As filhas do casal também são missionárias.

As três gerações estão fazendo a tradução da Bíblia para a língua jamamadi, segundo o site oficial da igreja, onde se lê que “somente confiando em Jesus Cristo como a oferta do perdão de Deus alguém pode ser salvo do pecado”.

O mais de meio século de presença da família Campbell mudou a rotina dos jamamadis, etnia com cerca de 400 pessoas. Sem fiscalização, os missionários contam com um vôo regular entre a aldeia e Porto Velho, pelo qual, segundo relatos, costumam levar jamamadis para períodos longe da terra indígena, trazer norte-americanos para visitas e transportar mercadorias, além de fazer o deslocamento de pacientes indígenas acompanhados de funcionários da Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena). 

Por dominar a língua jamamadi, Steve tem grande influência na entrada de outros não indígenas ao território. A sua presença tem dificultado o ingresso de alguns funcionários da Sesai e de professores Secretaria Municipal de Educação. O missionário já teve até um comércio na aldeia, onde vendia produtos como sabão e arroz.

Recentemente, o missionário chegou a solicitar à Funai um Registro Administrativo de Nascimento de Indígena (Rani) para que fosse considerado jamamadi, mas o pedido foi negado. À época, ele dizia ser “fofoca” o fato de de que é norte-americano.

O casal não tem autorização oficial da Funai para morar na terra indígena, mas, devido à relação antiga e próxima com os jamamadis, há um acordo informal de que a presença se limite à aldeia São Francisco, o que Steve não cumpriu.

“Não concordo com a forma como ele atua”, diz Zé Bajaga, liderança indígena regional da etnia apurinã e funcionário da Funai. “Ele é independente, não fala com ninguém e usa as crenças dos jamamadis, do que eles têm medo, para perseguir as pessoas contrárias a ele.”  

No depoimento à Funai, Steve alegou que fez a expedição a convite dos jamamadis e que o motivo foi ensiná-los a usar GPS. Ele disse que só passou pelo território dos hi-merimãs, vizinho à TI dos jamamadis, porque era o único caminho de chegar ao local de destino. O missionário se comprometeu a não voltar mais a essa região.

Fonte: Folha de São Paulo