Produzido nos Estados Unidos, o filme anti-Islã “A Inocência dos Muçulmanos” provocou diversos ataques de retaliação em países do Oriente Médio e arredores. Em alguns desses lugares, cristãos foram acusados de profanarem o profeta Maomé e compactuarem com a ofensa que lhes foi imposta. Na Nigéria, um grupo de crentes se juntou aos islâmicos em protesto contra a intolerância religiosa

Na cidade nigeriana de Kaduna, conhecida pela violência sectária (intolerante), muçulmanos e cristãos uniram-se na última sexta-feira (05), contra um inimigo comum: o vídeo anti-islâmico que provocou protestos em todo o mundo. Líderes religiosos declaram ódio ao vídeo, mas esperam que esse fator possa ajudar a curar décadas de violência entre os dois grupos.

Passaram-se mais de dez anos desde que a população de Kaduna tem convivido com a violência entre muçulmanos e cristãos. Os moradores dizem que, por causa disso, adeptos do cristianismo evitam algumas áreas de risco, para evitar o perigo. Pela mesma razão, seguidores de Maomé agem da mesma forma, em outras partes da cidade.
Independentemente disso, ataques motivados pela intolerância religiosa e desrespeito às diferenças continuam em muitos locais de Kaduna, com cerca de 100 pessoas mortas só em junho passado.

Mesmo diante de tal situação, na sexta-feira, líderes religiosos, cristãos e muçulmanos, marcharam juntos, condenando a produção do filme anti-Islã “A Inocência dos Muçulmanos” e celebraram o que esperam que venha a ser um passo em direção à paz.

Abdulkareem Youssef, um dos organizadores da manifestação, disse que a situação não mudou muito desde meados de setembro, quando os protestos começaram em todo o mundo, após o vídeo em questão, produzido por um americano, ter sido lançado no YouTube.

No mês passado, na Líbia e no Egito, as reações ao filme foram bastante violentas; mas os protestos na Nigéria têm sido pacíficos. Youssef afirmou que o objetivo dos manifestantes é dizer ao mundo que não há aceitação para qualquer material similar, ou então, as ações de retaliação seriam carregadas de violência.

“Nós não queremos que isso aconteça novamente. Caso contrário, não seremos tão suaves com quem sabota nosso profeta”, ameaçou ele.

A maioria dos manifestantes reunidos no dia 5 era muçulmana. Centenas deles cantaram louvores em árabe para Maomé. Mas o pastor Yohanna Buru é um dos muitos líderes cristãos que estacionaram seus carros no bairro muçulmano, somente para acompanhar o grupo em marcha. O local foi cercado por dezenas de guardas armados.

Ele confirmou que se juntou ao protesto em solidariedade, porque ambos os grupos são contra a divulgação de material ofensivo a qualquer religião. “A raiva provocada pelo vídeo”, Buru acrescenta, “gerou a oportunidade de muçulmanos e cristãos restabelecerem laços”.

“Protesto preventivo também é um fator relevante urgindo entre os cristãos, que pedem a condenação do vídeo, para que os muçulmanos não os acusem de apoiá-lo, o que poderia causar uma nova onda de violência entre ambos os grupos”, continuou.

“Estamos apoiando a demonstração hoje, porque sabemos que isso vai nos devolver a paz. Muitos muçulmanos não entendem que nós, cristãos, não estamos apoiando o que aqueles cineastas fizeram”, afirmou Buru.

Kaduna é uma cidade localizada no centro da Nigéria que, assim como o país, está dividida, com a maioria dos muçulmanos ao norte e os cristãos ao sul.

A organização Human Rights Watch informou que cerca de 16 mil pessoas foram mortas em atos de violência política ou sectária na Nigéria, desde 1999 e, grande parte do derramamento de sangue, tem sido na região conhecida como Cinturão Médio, exatamente onde fica Kaduna, lugar em que mais de 800 pessoas foram mortas, só em 2010.

A violência sectária na Nigéria é, geralmente, resultado das diferenças políticas ou mesmo motivada por vingança. Mas, as batalhas quase sempre envolvem falhas étnicas e religiosas.

[b]Fonte: VOA via Missão Portas Abertas[/b]