Juan Mendez Mendez, 25 anos, se tornou um cristão em uma vila fora de sua cidade, no Estado de Chiapas, no dia 7 de abril. Dois dias depois, as autoridades locais o prenderam por deixar a religião local, que mescla práticas católicas com costumes tribais.

Os moradores de Chiapas castigam os convertidos que deixam a tradição da fé dos nativos.

No domingo anterior à Páscoa, autoridades locais da vila Tzotzil Maya constataram que o desaparecimento de Juan Mendez ocorreu depois que ele foi intimado a comparecer a uma festa religiosa de ritos pagãos.

Juan Mendez, que foi solto no dia 10 de abril, contou ao Compass que eles o interrogaram durante a festa, dizendo: “O que significa aceitar Jesus? Significa que você não acredita mais nos nossos deuses (santos)?”. E ele respondeu: “Todos nós somos apóstolos e eu agora pertenço a Cristo”.

Os líderes da cidade ameaçaram espancá-lo. Ele replicou: “Se vocês vão me bater, estou aqui”.

Os líderes da cidade o ameaçaram de prisão. No dia seguinte, Juan Mendez foi interrogado novamente e confirmou que ouviu falar do evangelho em outra vila e que agora desejava fazer parte da igreja Asas de Águia, que fica em Pasté.

Os oficiais ameaçaram despi-lo e jogaram água gelada nele enquanto estava na prisão. Juan chegou a dizer: “Vocês sabem o que vão fazer depois?”. Um deles disse: “Nós vamos bater em você. Vamos te espancar”. Outro disse: “Não, não vamos machucá-lo”.

O pastor da igreja Asas de Águia, Jose Gomez Hernandez, foi interrogado e confirmou que Mendez pretendia fazer parte da igreja, apesar de ainda não ter tido oportunidade. Os oficiais decidiram manter Juan preso até a madrugada de 10 de abril.

Os membros da igreja Asas de Águia receberam autorização para visitá-lo. Ele disse a um deles: “Se tenho que ser um prisioneiro, não tenho outra alternativa a não ser seguir em frente”. Ele contou que sua esposa, também recém-convertida, está muito feliz e que apesar das circunstâncias está disposta a continuar na fé.

Juan não foi machucado enquanto esteve na prisão e foi liberado sem sofrer novas ameaças. No entanto, para outro pastor da igreja Asas de Águia, Antonio Vasquez, só a prisão de Juan Mendez já configura uma ameaça.

“O mais doloroso para mim é que irmãos que fazem parte da igreja continuam participando de festivais pagãos”, disse o pastor Vasquez ao Compass. “Se eles não fossem, as autoridades locais teriam que prender a todos”, completou.

O pastor Vasquez contou ainda que o município de Zinacatan, ao qual pertence a vila Pasté, é uma região que compreende 46 comunidades católicas tradicionais, onde qualquer forma de evangelização é proibida. “Existem áreas que não permitem o evangelho. Existem irmãos que vivem como prisioneiros em outras comunidades”, disse.

Casa queimada e família torturada

Vasquez, cuja igreja possui entre 60 e 80 membros – sendo a maioria tzotzil ou tzeltal – começou o trabalho em 1996. Não é a primeira vez que ele enfrenta a ser perseguição na região por parte dos católicos tradicionalistas.

Em 1998, os caciques políticos da região o mantiveram preso por 45 horas, sem comida. Em 2000, ele só acabou liberado da prisão depois de uma intervenção do ministério para Assuntos Religiosos de Chiapas – que imediatamente exigiu que ele participasse, ao lado da igreja católica tradicionalista, de seus festivais religiosos pagãos, o que o pastor entende como negação da fé.

“Uma procuradora do governo me disse: ‘Sabe? Sou cristã, mas você precisa fazer o que eu mandar’.”. O pastor Vasquez respondeu: “Como autoridade você não pode me obrigar a negar a minha fé, porque, assim como você bem sabe, vai contra a Constituição. Sem contar que, como cristã, você não pode me obrigar a negar a minha fé e todas as coisas que o meu credo requer.” Depois disso, segundo ele, ela pareceu bastante envergonhada.

O ministério para Assuntos Religiosos tem obtido sucesso em forçar a congregação a participar dos rituais tradicionalistas católicos que trazem caciques das tribos, não apenas para prestar oferendas durante o festival, como também para vender álcool.

“Alguns cristãos disseram: ‘Você gosta de problemas, nós não, por isso assinamos um acordo com o governo’”, contou o pastor. Ele conta que estava se preparando para sair da região quando Deus lhe disse: “Fuja, covarde, os covardes não têm parte comigo”.

Vasquez resolveu assinar um acordo com o governo, o qual permite que ele pregue o evangelho, desde que participe dos tradicionais festivais católicos – “algo muito doloroso”, disse ele. Desde então a igreja cresceu muito, mas o acordo não conteve a perseguição. Em 20 de agosto os caciques o prenderam novamente, ao lado do pai, dos dois irmãos e queimaram a casa da família.

No dia seguinte, ao sair da prisão, foi ironicamente acusado pelo prefeito da cidade de ter queimado a própria casa. Vasquez respondeu: “Como posso ser um prisioneiro que queima a sua própria casa?”.

A casa foi reduzida a pó de cinzas. Nada foi recuperado.

Vasquez conseguiu construir uma nova casa com madeira doada e uma lona no teto, mas as autoridades locais cortaram sua água e eletricidade. Ele ficou vivendo à luz de vela, captando água do poço e comprando água de fornecedores nos últimos seis anos.

O ministro do Estado de Chiapas havia assegurado um acordo com os chefes locais para restabelecer a água e a eletricidade, mas secretamente há uma conspiração para deixá-lo sem os serviços. A última explicação que o pastor Vasquez ouviu de um oficial do governo foi: “Esqueça, nada pode ser feito”.

Não sendo mais contribuintes e participantes das festas pagãs regadas a bebida alcoólica em homenagem a santos católicos, em 2004, o pai e os irmãos dele foram presos enquanto pregava em outra cidade. Na prisão, eles ficaram sem roupa e sofreram diversos tipos de tortura. Foram atingidos por uma substância química que queimava a pele, sofreram alfinetadas e foram alimentados com sucos bem apimentados. Eles só foram soltos após a intervenção das autoridades.

Por causa da cumplicidade do governo, “esse tipo de abuso acaba sendo comum”, afirma o ministro de Assuntos Religiosos de San Cristobal, Esdras Alonso Gutierrez, e fundador do movimento Asas de Águia.

“A situação nessas áreas ao redor de San Cristobal e San Juan Chamula se acalmou, mas no início de 1998-2000, a violência fora de San Juan começou a crescer”, disse Esdras ao Compass. “Na última administração de Chiapas, sob o governo de Pablo Salazar,não houve assassinatos em San Juan Chamula, mas há perseguição em outras áreas: Huistan, Zinacatan, Las Margaritas, San Cristobal de las Casas, Ocosingo and La Trinitaria , entre outras”.

Fonte: Portas Abertas