
Juarez Marcondes Filho assume o Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil e fala sobre polarização política, Legendários, críticas nas redes sociais e participação feminina
O reverendo Juarez Marcondes Filho, novo presidente do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), afirma que a denominação não pretende se deixar levar pela polarização política e rejeita a associação da igreja a qualquer projeto partidário. Ele assumiu o comando do órgão máximo da denominação no início de agosto, após uma eleição realizada durante a reunião nacional do Supremo Concílio.
Com 167 anos de história e aproximadamente 1 milhão de membros, a IPB atravessou a reunião de 2026 envolvida em discussões sobre temas como o movimento Legendários, a participação feminina nos cultos e a chamada “maledicência digital”.
Em entrevista à Folha de S. Paulo, Marcondes Filho reconheceu que determinados valores defendidos pela denominação encontram afinidade com setores da direita, mas afirmou que isso não significa que a igreja possa ser identificada com o bolsonarismo ou com qualquer outra corrente partidária.
“Não se pode de maneira nenhuma dizer que a igreja é lulista ou bolsonarista. Isso aí chega a ser uma pecha desagradável para nós.”
Igreja quer manter atuação pública sem se tornar partidária
Segundo o novo presidente, a IPB entende que deve participar da sociedade e manter diálogo com autoridades, inclusive em ambientes políticos, mas sem assumir uma posição partidária institucional.
A denominação possui membros em diferentes áreas do poder público. Entre eles está o ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça, que é pastor presbiteriano.
Para Marcondes Filho, a presença de cristãos na política e em instituições públicas faz parte da atuação da igreja na sociedade. Ele defende que a denominação tenha uma postura de participação e orientação, sem transformar diferenças políticas em motivo para excluir pessoas.
O líder também reconhece que a polarização chegou a alguns discursos dentro da IPB. O problema, segundo ele, aparece tanto no “direitismo exacerbado” quanto no “esquerdismo exacerbado”, que podem criar divisões entre os membros.
Ao mesmo tempo, ele afirma que as decisões do Supremo Concílio não foram determinadas por essas disputas.
Legendários gerou um dos principais debates
A relação entre a IPB e o movimento Legendários foi um dos assuntos que ganhou maior repercussão durante a reunião do Supremo Concílio.
A denominação decidiu desaconselhar a participação de seus membros no movimento diante da possibilidade de que alguns participantes retornassem às igrejas tentando promover mudanças consideradas incompatíveis com a estrutura e a doutrina presbiterianas.
Marcondes Filho, entretanto, diferencia a participação no movimento de eventuais conflitos posteriores. Segundo ele, atividades relacionadas à fé cristã e ao amor ao próximo não são o problema. A questão estaria em comportamentos que levem participantes a confrontar a organização da igreja.
O reverendo também comentou a repercussão de uma fala do pastor Arival Casimiro, que afirmou durante um culto: “Não se apavora não, tá? Os concílios erram”. Segundo o presidente, a declaração foi feita em tom de brincadeira, mas ganhou outra dimensão depois de ser recortada e compartilhada nas redes sociais.
IPB tenta estabelecer limites para críticas na internet
Outro tema debatido foi a resolução relacionada à chamada “maledicência digital”. A medida provocou questionamentos sobre a possibilidade de a igreja utilizar mecanismos disciplinares para impedir críticas às suas lideranças.
Marcondes Filho afirma que a resolução não pretende impedir críticas legítimas. Para ele, acusações precisam ser acompanhadas de provas e submetidas ao contraditório antes de qualquer medida disciplinar.
“O que não podemos admitir é o denuncismo vazio. É como abrir o travesseiro de penas e jogá-las ao ar. Você nunca mais junta as penas.”
A preocupação está relacionada principalmente à velocidade de disseminação de acusações nas redes sociais. Na visão do presidente, uma declaração ou denúncia publicada na internet pode alcançar milhares de pessoas antes que os envolvidos tenham oportunidade de apresentar sua versão.
Ele também defende que a internet seja utilizada de maneira responsável, reconhecendo que a ferramenta pode contribuir para a comunicação, mas também causar danos quando utilizada para espalhar acusações sem comprovação.
Participação feminina continua sendo questão doutrinária
A restrição à atuação feminina no culto público também permaneceu entre os assuntos controversos dentro da denominação.
A IPB não ordena mulheres ao ministério pastoral e mantém a posição de que a pregação no culto público deve ser realizada por homens. Marcondes Filho afirma que essa posição não representa falta de reconhecimento da importância das mulheres na denominação.
Segundo ele, mulheres atuam em diferentes áreas da igreja, incluindo missões, educação cristã e palestras. A restrição está especificamente relacionada à pregação no culto e à ordenação pastoral.
O presidente rejeita ainda as acusações de misoginia e afirma que a posição adotada pela IPB tem origem exclusivamente em sua compreensão doutrinária.
“Não somos. Temos o maior respeito pelas mulheres, elas são importantíssimas no seio da igreja.”
Marxismo e filiação partidária
Outro assunto discutido no Supremo Concílio foi a posição da denominação em relação ao marxismo. Marcondes Filho argumenta que a questão está relacionada à incompatibilidade que a IPB identifica entre uma concepção marxista ateísta e a fé cristã.
A posição, porém, não significa que a igreja tenha estabelecido uma lista de partidos políticos proibidos. Segundo o presidente, a avaliação deve considerar a crença professada pelo indivíduo, e não simplesmente sua filiação partidária.
A IPB também não impede que seus pastores expressem opiniões políticas individualmente. A distinção está entre o posicionamento pessoal do ministro, como cidadão, e uma eventual posição oficial da denominação.
Nova liderança após 24 anos
Marcondes Filho assume o Supremo Concílio depois de 24 anos de liderança do reverendo Roberto Brasileiro. O novo presidente reconhece a importância do período anterior e afirma que pretende preservar aquilo que considera positivo da gestão, sem deixar de promover mudanças.
A transição ocorre em um momento de debates internos e de forte polarização política no país. Para o novo presidente, o desafio será conduzir uma denominação com diferentes visões políticas sem permitir que disputas ideológicas determinem sua identidade.
Nesse cenário, a IPB deverá continuar enfrentando questões que ultrapassam os limites de sua estrutura interna, como a relação entre fé e política, o uso das redes sociais, os novos movimentos cristãos e o papel das mulheres na igreja.
A direção apresentada por Marcondes Filho é de uma igreja presente na sociedade e aberta à participação de seus membros no debate público, mas que procura preservar sua identidade doutrinária e evitar que a polarização partidária seja incorporada à instituição.




