Os EUA são um país 78,4% cristão, onde os evangélicos e os não-religiosos são os grupos que mais crescem –em movimento inverso ao dos protestantes históricos moderados, que mais diminuem. Os números estão num extensivo levantamento divulgado neste ano pelo Fórum Pew, um dos institutos de pesquisa mais respeitados do país.

As conseqüências políticas dessa polarização ainda não são totalmente conhecidas, mas terminarão por se refletir em várias esferas da sociedade e, como não poderia deixar de ser, na própria eleição presidencial.

Numa democracia cuja dinâmica está assentada sobre uma batalha permanente entre os mais diversos grupos de interesse da sociedade civil, seria estranho que a religião não tivesse a sua parte, a despeito da separação constitucional entre igreja e Estado. Nos últimos oito anos, as vozes mais conservadoras da religião nos EUA deixaram bem clara a sua marca, assegurando as duas últimas eleições presidenciais ao Partido Republicano.

Com o aumento dos não-religiosos e com a relativa moderação de parte do discurso evangélico em meio à recessão econômica e aos resultados da Guerra do Iraque, o mapa da religião nos EUA pode estar mudando. O cientista político John Green, um dos principais especialistas do Fórum Pew na área de religião e sociedade, explica o que essas tendências significam.

A religião teve um papel decisivo nas duas últimas eleições presidenciais. Hoje ela é menos importante do que em 2004? Qual é o papel da religião nesta eleição?

A religião tem um papel mais importante nesta eleição do que em 2004, pelo menos até este ponto da campanha. Isso não quer dizer que não tenha sido importante em 2004. O que estamos vendo é uma mudança no grau de influência da religião –não em magnitude nem no tipo de pensamento. Tanto o candidato Democrata quanto o republicano estão falando de religião. E normalmente só um dos lados falava nisso.

Quais são as conseqüências de declarações como as do reverendo Jeremiah Wright e do padre Michael Pfleger, e a reação da mídia?

Ainda não ficou claro. O que essas controvérsias mostram com certeza é que a religião pode ser uma faca de dois gumes quando se trata de política. Tanto pode ajudar um candidato, persuadindo os eleitores, como pode prejudicá-lo. A religião é tão importante, para um grupo tão grande de americanos, que acaba sendo um elemento ao mesmo tempo muito positivo e muito negativo.

Com os escândalos, parece ter havido também um clamor pela religião fora da política.

Hoje uma das principais vozes a expressar esse ponto de vista é a das pessoas que não são religiosas –ateus e agnósticos. Mas, se você olhar por uma perspectiva histórica, verá que, antes, muitos dos que achavam que a religião deveria ficar fora da política eram religiosos. Achavam que misturar religião com política era ruim para a religião.

Um bom exemplo é o colunista Cal Thomas, originalmente um dos líderes da maioria moral nos anos 80. Ele ainda é um arraigado conservador cristão, mas chegou à conclusão de que pelo menos os evangélicos, se não todos os religiosos, deveriam ficar fora da política sempre que possível.

Sobre o crescimento de ateus e agnósticos, é algo a se levar em conta?

Sempre houve muita gente não-religiosa nos EUA, mas os números cresceram na última década. Na pesquisa do Fórum Pew, eles aparecem como não-afiliados, porque não estão associados a religiões organizadas. Dentro desse grupo, há uma grande diversidade: ateus e agnósticos, que cresceram em número, mas ainda são grupos relativamente pequenos, e há um grupo maior de pessoas que não estão envolvidas com religião organizada, mas ainda assim têm crenças e com freqüência tomam parte em práticas religiosas.

Na linguagem comum, essas pessoas são chamadas de espirituais, mas não religiosas. Há ainda um terceiro grupo, na realidade o maior deles, que está nessa categoria, mas é muito indiferente à religião. Não são pessoas nem hostis nem críticas à religião, mas indiferentes. O que isso significa politicamente? Bem, significa duas coisas: os não-religiosos ou menos religiosos agora fazem parte da mistura. Isso torna acessível a medida de outra porcentagem da população cujos valores podem ser bem distintos em relação a certas questões.

O segundo significado é que os EUA, de certa forma, começam a seguir os passos de outras sociedades industrializadas, como as nações européias, onde a secularização é um fenômeno muito importante, e o número de pessoas não-afiliadas a alguma religião organizada é muito grande. A quantidade nos EUA não chega nem perto, mas a tendência os empurra para o lado de nações às quais eles se assemelham em outros aspectos.

A política americana está se tornando mais européia? Essa tendência na direção de uma sociedade menos religiosa seria uma reação a anos de conservadorismo cristão?

Não acho que o crescimento da população secular se deva em sua totalidade a uma reação ao conservadorismo. É uma reação a outras mudanças na sociedade. A reação à política dos conservadores cristãos é evidente na manifestação cada vez mais sonora das posições políticas dessas pessoas não-religiosas. Essa voz política é que é uma reação à política do conservadorismo.

Em geral, as pessoas não abandonam as igrejas ou decidem tornar-se não-religiosas por razões políticas. Fazem-no por motivos pessoais ou sociais, pela forma como foram educadas, porque a vida está mudando ao seu redor. E essa é uma tendência de longo prazo. Estamos vendo esse crescimento dos não-afiliados nos últimos dez anos, mas se examinarmos com atenção, veremos que é uma tendência que remonta a muitas décadas atrás e vem se desenvolvendo desde então.

As mudanças que estão ocorrendo na nossa sociedade podem provocar alguns tipos de políticas. Uma delas é a dos conservadores cristãos; a outra é a reação, a crescente politização da população secular. Volta e meia me perguntam se os EUA estão se tornando uma sociedade mais laica ou mais religiosa. E a resposta é: as duas coisas ao mesmo tempo.

Uma das razões que faz a religião ter um papel tão importante na política americana é o fato de termos duas tendências acontecendo simultaneamente. Se por um lado discutimos o aumento da população não-afiliada, por outro, o tamanho das igrejas evangélicas e de outras igrejas conservadoras também está crescendo. Provavelmente porque ambas estão reagindo a mudanças mais profundas e mais vastas na sociedade americana.

Os grupos perdedores são os que podemos chamar de mais moderados, como os protestantes tradicionais, que no passado eram as principais igrejas protestantes nos EUA. São elas as maiores perdedoras nisso tudo. Os evangélicos e seus primos protestantes mais conservadores têm crescido, os não-afiliados têm crescido, mas a população das denominações protestantes clássicas tem diminuído. Isso se aplica também ao que chamamos de Igreja Católica branca, de origem européia. Também encolheu significativamente.

A totalidade da população católica só não teve um declínio significativo por causa da imigração, em especial, mais recentemente, a imigração da América Latina. Muito da guerra que observamos hoje na política americana, entre os grupos religiosos mais conservadores e os grupos mais liberais, alinhados com pessoas não-religiosas ou menos religiosas, vem do crescimento simultâneo dessas duas tendências.

Ao mesmo tempo, alguns grupos de cristãos moderados, inclusive evangélicos, estão tentando se tornar mais visíveis do que foram na última eleição presidencial e aproximar os democratas dos religiosos. Trata-se apenas de uma estratégia política ou é o sinal de uma nova realidade? Recentemente, alguns jornais têm falado numa retração dos fundamentalistas, com igrejas fechando etc. Quanto disso é real?

As duas coisas estão acontecendo. Certamente, há um esforço de religiosos liberais de vários tipos, os autodenominados progressistas, no sentido de ter mais voz na política americana. Historicamente, é uma tentativa de retomar um nível de influência que os religiosos liberais outrora tiveram. Antes da ascensão da direita cristã, os grupos religiosos mais politicamente relevantes nos EUA eram os liberais.

Se você remonta ao movimento dos direitos civis, aos protestos contra a Guerra do Vietnã e mesmo ao início do movimento feminista e do movimento ambientalista, todos estavam intimamente associados aos religiosos liberais. Eles foram eclipsados –mas não completamente– pela ascensão da direita religiosa.

Acho que há um esforço real entre líderes e militantes religiosos liberais para recuperar sua antiga proeminência. A questão é saber se essa gente pode vir a ter sucesso. No curto prazo, ainda não está claro. Afinal, a direita religiosa levou décadas para conquistar a influência que tem na política americana. Essa influência pode estar declinando um pouco, mas também não está muito claro.

A longo prazo, para além desta eleição, há uma verdadeira probabilidade de que a esquerda religiosa volte a ser um fator da política americana. Há um número significativo de americanos que poderia tomar parte nesse esforço, politicamente. É um grupo internamente muito diverso, mas a direita religiosa é igualmente diversa no seu interior. O que realmente vai importar são os assuntos.

O foco em questões como casamento entre pessoas do mesmo sexo e aborto provavelmente ajudará a direita religiosa e prejudicará os religiosos liberais. Mas, se o foco for transferido para a justiça, o bem-estar social e o ambiente, provavelmente teremos o efeito inverso. Muito depende da agenda política nos próximos anos.

Recentemente, o “New York Times” publicou uma reportagem sobre o fechamento das igrejas mais conservadoras no Estado de Kansas, por causa de falta de público. Isso está acontecendo no país inteiro? É conseqüência da recessão e da guerra?

Não acho que seja um fenômeno nacional. Há uma metáfora que descreve muito bem os EUA. Somos um mercado de religião. Como em todo mercado, há altos e baixos, alguns negócios quebram, outros florescem. O mesmo acontece com a religião no país. Você tem uma certa quantidade de fracassos. Isso pode acontecer em qualquer lugar e em qualquer época. Mas não há nenhuma indicação mais geral de que os conservadores cristãos estejam em declínio. Ao contrário, temos indicações de que continuam a crescer.

Isso não significa que certas igrejas não possam fracassar. Em alguns lugares, entretanto, e Kansas é um ótimo exemplo, parece estar havendo uma espécie de desvio ou afastamento do cerne da política da direita religiosa. Parte disso tem a ver com uma mudança geracional. Os jovens evangélicos são teologicamente tão conservadores quanto seus pais e avós, mas politicamente eles têm um ponto de vista muito diferente.

Muitos dos novos líderes (quando falamos de jovens líderes, estamos falando de gente com menos de 50 anos) que estão surgindo, gente como Rick Warren, na Califórnia, e Joel Hunter, na Flórida, são pessoas com uma agenda bem diferente quando se trata de assuntos de interesse público, muito diferente de um Pat Robertson ou de um Jerry Falwell [apresentadores de TV e cristãos conservadores].

Parte disso é, sem dúvida nenhuma, uma reação a uma política muito áspera por parte da direita religiosa. Não acho que a ênfase ou a dimensão desses grupos estejam mudando muito, mas há certamente um foco bem diferente em relação aos interesses públicos.

Os Batistas do Sul tinham até outro dia um presidente relativamente mais moderado em termos políticos do que seus predecessores. Isso muda alguma coisa?

Os Batistas do Sul são a maior denominação protestante dos EUA. Depois da Igreja Católica, são a maior denominação de qualquer tipo no país. De um jeito ou de outro, eles têm um grande impacto. Quando a direita religiosa ganhou destaque nos anos 80, e ao longo dos anos 90, a Convenção dos Batistas do Sul elegeu presidentes conservadores.

Agora estão elegendo presidentes mais moderados. São ainda muito conservadores do ponto de vista religioso, mas sua relação com o mundo é bem mais moderada. No caso de Frank Page, que foi presidente até meados de junho, o que ele propunha eram duas coisas: primeiro, que os batistas voltassem suas atenções para a religião e não para a política; segundo, que, ao se envolverem em política (e ele não estava dizendo que os batistas tinham que deixar a esfera pública), deviam dar ênfase a questões mais amplas.

Ele é certamente contra o aborto e condena o casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas acha que há toda uma gama de outras questões que são importantes e pelas quais os conservadores cristãos deveriam se interessar, contribuindo com seus valores. Podemos estar vendo um compromisso menor dos Batistas do Sul em relação a causas conservadoras, e um lado mais moderado na sua relação com a política.

Qual é a situação das igrejas negras hoje nos EUA?

Sempre houve muita diversidade, mas, por causa da importância da raça e da luta pelos direitos civis, havia um grau de unidade entre as igrejas afro-americanas que encobria a diversidade interna. É claro que, quando entramos no âmbito da política americana, a raça deixa de ser o fator unificador de outrora. Algumas dessas distinções entre as igrejas negras estão começando a aparecer.

Se você for a uma igreja negra típica, batista ou metodista, vai perceber que, em muitos aspectos, ela se assemelha demais a uma igreja batista ou metodista branca. A teologia é muito parecida, a moral é muito tradicional. É claro que há outras preocupações, porque são negros e por causa da história dos afro-americanos nos EUA. A perspectiva radical da teologia da libertação negra não é nem nunca foi popular entre esses círculos.

Isto posto, a maioria dos protestantes afro-americanos concordaria com as queixas e o ressentimento do reverendo Wright sobre a opressão aos negros, as condições sociais em que muitos afro-americanos vivem etc. Eles só não concordariam com as soluções. Há muita gente conservadora nessas igrejas e, sempre que questões como aborto e homossexualidade se tornam temas de eleição, elas tendem a se alinhar com o Partido Republicano.

É claro que os mais moderados não podem se alinhar com os republicanos por causa da sua posição em relação aos direitos civis. Então a igreja afro-americana está numa espécie de encruzilhada. O que a unia, que era a luta pelos direitos civis, se torna cada vez menos importante. É claro que, se Barack Obama for eleito presidente, a importância desses fatores vai se reduzir ainda mais. Agora resta saber para onde eles vão. Vão dar uma guinada à esquerda? Vão para a direita? Vão tentar encontrar um lugar no centro?

Na sua opinião, qual é a conclusão mais notável da pesquisa do Fórum Pew sobre o cenário religioso americano?

A religião no país é extraordinariamente diversa e dinâmica. E está ficando cada vez mais. Há uma diversidade notável de religiões nos EUA. O país é incontestavelmente o mais diversificado em termos de religião no mundo, embora haja outros com grande diversidade. Mas nenhum se equipara aos EUA em termos de dinamismo da religião, o nível de mudança e inovação.

Isso apenas na esfera religiosa, para não falar nas muito complexas conexões que essa religião diversa e dinâmica pode ter na política. Há muitas razões pelas quais a política e a religião têm tanto destaque na vida pública do país, e muito disso remonta à diversidade e ao dinamismo da religião nos EUA.

Falando em diversidade, qual é o papel de grupos menos visíveis, como os muçulmanos e os mórmons, nessa eleição?

São grupos pequenos, mas que crescem bem rápido. Há muita diversidade dentro de ambos, mas, por serem minorias na política americana, tendem a ser mais unidos. Na maioria das pesquisas, os mórmons são os mais republicanos de todos os grupos religiosos dos EUA.

E, em muitas pesquisas, os muçulmanos, se não são os mais democratas, estão muito perto de o serem. Em parte isso tem a ver com a sua posição de minoria. No geral, as chances de influenciarem a eleição são modestas, por serem grupos pequenos, mas é importante lembrar que elegemos as pessoas por Estado. Não há nada que se assemelhe a uma eleição nacional nos EUA.

Os mórmons e os muçulmanos estão concentrados em alguns lugares. Por exemplo, os mórmons têm uma influência enorme nos Estados das Montanhas Rochosas, do Oeste, como Utah, é claro, mas também Nevada, Colorado, Arizona. Os muçulmanos estão muito presentes em Michigan, Ohio, Flórida, Nova Jersey. São todos Estados críticos.

Numa eleição com disputa muito apertada, um pequeno grupo concentrado em um Estado, que vota em massa por um partido, pode fazer uma grande diferença. Quando os políticos, Obama e John McCain, olham para o mapa dos EUA, eles vêem vários desses pequenos grupos e se dão conta de que em Estados-chave eles podem ser cruciais.

Fonte: Folha Online