O Vaticano rejeitou a indicação de ao menos três possíveis candidatos a ocupar o cargo de embaixador americano junto à Santa Sé, entre eles Caroline Kennedy, filha do presidente americano John Kennedy (1961-1963), o único católico que governou os Estados Unidos.

Os vetos foram divulgados pela imprensa internacional nesta terça-feira e, segundo fontes da Igreja Católica, teriam sido motivados pelo apoio dos possíveis indicados, e do governo de Barack Obama, ao direito ao aborto e às pesquisas com células-tronco embrionárias. Nenhuma indicação chegou a ser feita oficialmente.

“É imperativo, é essencial que a pessoa que nos represente na Santa Sé seja uma pessoa que tem valores pró-vida. Eu espero que o presidente não cometa esse erro”, disse ao jornal “Boston Herald” o ex-embaixador americano no Vaticano Raymond L. Flynn, referindo-se à possível indicação de Caroline Kennedy. “Ela disse que era pró-escolha. Eu não imagino que ela vá mudar isso, o que é problemático.”

Pró-vida e pró-escolha são como se definem, nos EUA, os que se opõem ao aborto e os que defendem a legalidade da prática, respectivamente. Como os embaixadores precisam receber o “agreement” (concordância) do país em que pretendem trabalhar, é comum que os representantes dos EUA no Vaticano sejam católicos e tenham visões mais próximas às da igreja nesse tema.

O italiano “Il Giornale” informou que outro dos candidatos ao posto que teria sido vetado seria Douglas Kmiec, um democrata católico que escreveu um livro defendendo o apoio dos católicos à candidatura de Obama à Presidência.

Caroline Kennedy participou da campanha de Obama e chegou a ser cotada para suceder Hillary Clinton no Senado, depois que a então senadora por Nova York renunciou ao cargo para assumir a Secretaria de Estado, mas retirou seu nome da disputa pela indicação.

Choques

Desde que tomou posse, em 20 de janeiro, o novo presidente americano deixou claro que não compartilha da visão pró-vida católica. Três dias depois de assumir o cargo, Obama assinou uma ordem executiva suspendendo a proibição imposta pelo antecessor, George W. Bush (2001-2009), ao uso de fundos do governo para subsidiar grupos que pratiquem ou auxiliem na prática do aborto no exterior. No dia seguinte, o arcebispo Rino Fisichella, presidente da Academia Pontifícia para a Vida do Vaticano, qualificou de “arrogância” a decisão.

No dia 9 de março, Obama suspendeu as restrições ao uso de fundos federais para financiar pesquisas com células-tronco embrionárias, técnica que a igreja considera equivalente ao aborto.

Com essas decisões, Obama inverteu os sinais da discordância do Vaticano com os EUA. O governo Bush, que compartilhava com a igreja visões em relação à moral individual e ao aborto, foi criticado por Bento 16 e por seu antecessor, João Paulo 2°, pelo recurso à guerra para resolver divergências. O novo governo, em choque com a igreja nessas questões, foi elogiado pelo “L’Osservatore Romano”, órgão de imprensa do Vaticano, pela ênfase na diplomacia para resolver as tensões internacionais.

O atraso na nomeação pode levar ao adiamento do encontro de Obama com Bento 16, esperado para acontecer no próximo mês de julho, durante a viagem do presidente americano à Itália para uma cúpula do G8 –grupo dos sete países mais industrializados mais a Rússia.

Fonte: Folha Online

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