O bispo de Bissau, dom José Camnaté, alertou para o “risco real” do narcotráfico desvirtuar as eleições legislativas marcadas para novembro, apelando à comunidade internacional para que continue ajudando o país a lutar contra a ameaça.

“Estamos muito preocupados porque o narcotráfico pode desvirtuar enormemente o verdadeiro sentido das eleições, fazendo entrar muito dinheiro no país”, afirmou o bispo católico, em declarações à Agência Lusa, em Bissau.

Dom José Camnaté receia que as pessoas não votem por convicção, por acreditarem em um projeto político, mas por se venderem ao dinheiro do tráfico de drogas.

“As consciências podem ser compradas e isso pode ser muito prejudicial para a Guiné-Bissau”, frisou, considerando que a influência do narcotráfico no país é “um risco real”.

O bispo de Bissau destacou, no entanto, que o fenômeno “ultrapassa as reais possibilidades de intervenção” das autoridades guineenses.

“A Guiné-Bissau, sozinha, não tem capacidade para combater o narcotráfico, por isso é urgente que a comunidade internacional mantenha a pressão sobre o país para que possamos fazer com que as eleições decorram em um clima de paz e os guineenses possam se exprimir livremente”, afirmou.

A Guiné-Bissau tem sido citada por organizações internacionais, incluindo pela ONU, como escala nas rotas de tráfico entre a América Latina e a Europa.

Ainda sobre as eleições legislativas de novembro, o bispo entende que é necessário um esforço conjunto de todos os guineenses para que se “crie um clima de convivência pacífica, de discussão dos problemas reais do país, para que se gerem consensos e se possa redescobrir um ideal comum”.

“É preciso que o povo da Guiné-Bissau sonhe novamente e faça tudo para que esse sonho seja transformado em um projeto político de desenvolvimento”, defendeu.

Nesse sentido, alertou que o atual distanciamento das pessoas em relação à vida política “é um perigo”, frisando que “a população está desiludida e a instabilidade política faz aumentar essa desilusão”.

“A classe política tem o grave dever moral de fazer o possível para ganhar novamente a confiança da população”, afirmou o bispo de Bissau.

Por essa razão, considerou ser “urgente que a classe política demonstre que tem um ideal, mas também a capacidade de se identificar com as aspirações profundas da população e de transformar essas aspirações num projeto de desenvolvimento”.

O bispo de Bissau também defendeu a necessidade de os militares “redescobrirem seu papel” na sociedade, para que possam contribuir para a construção de um país melhor.

“Os militares deveriam redescobrir o seu papel, que passa não só pela defesa da integridade territorial, mas também por se assumirem como uma força positiva na construção de uma nova sociedade”, afirmou.

Para o líder católico, “as Forças Armadas não devem ser parasitas, devem intervir no processo de desenvolvimento”, dando uma “contribuição positiva para que haja confiança mútua e interdependência, para que todos sintam que são necessários para a construção de um futuro comum”.

“O povo está à espera de ações concretas, não quer continuar a viver de promessas”, declarou, recordando que “a pobreza é um dos grandes problemas da Guiné-Bissau, está se tornando uma doença endêmica e se generalizando”.

Apesar da preocupação com a recente agitação política e militar no país, dom José Camnaté acredita que há “muita esperança”.

“Temos muitos sinais positivos. Nas nossas aldeias, a população está fazendo um grande esforço para garantir a sobrevivência, está lutando, organizando sua vida. Este povo não quer sucumbir diante das fragilidades do Estado, diante desta instabilidade política quase permanente”.

Fonte: Lusa