Alguns filmes valem à pena serem vistos por conta de sua qualidade técnica, outros pelo valor histórico; alguns pelos temas polêmicos que abordam e ainda outros apenas pelo divertimento que proporcionam. Mas outros tem a qualidade de mesmo tendo alguns “senões” do ponto de vista artístico, nos fazer pensar e refletir em aspectos relevantes da vida real.

“O Solista”, baseado em fatos verídicos, conta a historia do garoto prodígio Nathaniel Ayers, que depois de ganhar uma bolsa para a prestigiada escola de musica Juilliard em Nova Iorque , entra em colapso e se descobre com esquizofrenia, findando em se transformar em um mendigo que vive tocando pelas ruas de Los Angeles. Um belo dia um colunista famoso do Los Angeles Times por acaso se encontra com Nathaniel e resolve começar a escrever sobre ele em sua coluna. Assim surge uma inesperada e surpreendente amizade.

O jovem diretor britânico Joe Wright deu bastante espaço para o talento de Downey jr e Jamie Foxx e a atuação de ambos é o grande mérito do filme. os dois estão muito bem e sem os histrionismos de filmes anteriores. Assisti semana passada a uma reportagem no programa “60 Minutos” com os personagens reais e fiquei impressionado com a sutileza e verossimilhança com que são retratados no filme, que tem lá seus problemas também. A narrativa é um pouco quebrada e sofre uma certa queda de ritmo lá pela metade e a esquizofrenia de Nathaniel é apresentada sem muita criatividade e de forma um tanto cansativa.

Mas o que vale mesmo a pena é ver como o poder da amizade, do amor sincero pode mudar a vida das pessoas. A história de Nathaniel, o musico prodígio que virou indigente, é sem duvida interessante e chocante, mas na verdade o jornalista Steve Lopez foi quem mais me chamou a atenção. É tocante ver como surgiu de forma espontânea e natural nele, um sentimento nobre e afetuoso pelo musico sem-teto.

Contudo, por mais que o jornalista tenha se esforçado para melhorar a vida do mendigo, pouco pôde fazer para livrá-lo dos terríveis efeitos da esquizofrenia. De fato foi ele próprio que sem perceber, se modificou com a convivência. Seus relacionamentos e sua própria existência ganharam mais sentido a partir do tempo de convívio com aquela figura surreal e imprevisível.

Logo me veio à mente o exemplo de Jesus e como ele sempre valorizou os relacionamentos de amizade, como sempre investiu tempo com seus discípulos e seguidores, e como nos desafiou a amar o próximo como a nós mesmos e a dar mais importância às necessidades do outro do que as nossas próprias. Não há nesse mundo sentimento mais nobre do que a amizade sincera e mesmo o relacionamento marido-mulher, união suprema entre duas pessoas, na verdade é a evolução desse mesmo sentimento.

Amizade também envolve sacrifício, investimento, perdão, paciência e compreensão. Mas acima de tudo significa estar por perto, mesmo quando se está fisicamente distante.

Cultivar uma amizade verdadeira envolve todos os elementos da doutrina cristã e talvez por isso mesmo Jesus tenha sempre valorizado esse tipo de relação humana. Tanto que ao final do Seu ministério fez de questão de se referir a seus discípulos como amigos e não mais como servos ( Jo. 15:9-17).

O filme “O Solista”mostra que mais do que apenas afinidade, a verdadeira amizade é fundamentada no singelo e puro sentimento do amor fraterno, fagulha de Deus em nós, que tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

Um abraço,

Leon Neto

NOTA: Por problemas técnicos esta coluna não foi ao ar nesta segunda-feira