Urna eletrônica e a Bíblia. (Foto: Folha Gospel/IA)
Urna eletrônica e a Bíblia. (Foto: Folha Gospel/IA)

Disputas internas entre denominações, derrotas de veteranos e ascensão de novos nomes marcaram a composição da representação evangélica.

As eleições parlamentares de 2026 redesenharam a representação evangélica na política brasileira. Enquanto lideranças tradicionais ligadas a grandes denominações religiosas sofreram derrotas nas urnas, o pastor Silas Malafaia manteve influência eleitoral e apoiou candidatos que conquistaram vagas no Senado, na Câmara dos Deputados e em assembleias legislativas.

Os resultados apontam para um cenário de renovação entre os representantes evangélicos, com a saída de políticos que ocuparam posições de destaque nos últimos anos e a presença de nomes que mobilizam eleitores por meio das redes sociais e de pautas conservadoras.

Malafaia contabiliza vitórias de candidatos apoiados

De acordo com um levantamento feito por aliados de Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo e aliado da família Bolsonaro no meio evangélico, o pastor apoiou 36 candidatos ao Senado, dos quais 20 foram eleitos. Ele também declarou apoio a nomes que disputaram vagas na Câmara e nas assembleias legislativas.

Entre os deputados federais reeleitos com seu apoio estão Marco Feliciano (PL-SP), Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), Felipe Martins (PL-GO) e Fábio Souza (PL-GO). Sóstenes, que lidera o PL na Câmara, foi o único dos cinco parlamentares que se revezaram na presidência da bancada evangélica desde 2018 a conseguir a reeleição, segundo a Folha.

Malafaia também apoiou três deputados estaduais eleitos: Lisboa, pelo PL; Sargento Neto, na Paraíba, também pelo PL; e Alexandre Isquierdo Malafaia. Este último não é parente do pastor, mas adotou o sobrenome nas urnas por razões eleitorais. Ele ocupará a vaga de Samuel Malafaia, que cumpriu cinco mandatos e não concorreu em 2026.

Antigos dirigentes da bancada evangélica ficam pelo caminho

O resultado foi diferente para parte das lideranças que marcaram a atuação política evangélica nos últimos anos. Dos cinco parlamentares que presidiram a bancada desde 2018, apenas Sóstenes Cavalcante conseguiu se reeleger.

Gilberto Nascimento (Pode-SP), que ocupava a presidência da bancada, não conquistou uma vaga como titular e ficou na suplência. Cezinha de Madureira (PL-SP), ligado à Assembleia de Deus Ministério Madureira, também não se reelegeu. Silas Câmara (Republicanos-AM), que acumulava quase três décadas na Câmara, perdeu a disputa, enquanto Eli Borges (PL-TO) tentou uma vaga no Senado e terminou em terceiro lugar no Tocantins.

Outros nomes conhecidos também não conseguiram voltar ao Congresso, entre eles Otoni de Paula e Pastor Eurico (PSDB-PE). Os filhos do missionário R.R. Soares que disputaram vagas no Legislativo federal e em assembleias estaduais tampouco foram eleitos.

Em São Paulo, a Frente Parlamentar Evangélica da Assembleia Legislativa perdeu dez integrantes que não conseguiram a reeleição. Entre os candidatos derrotados para a Câmara estavam Gilberto Nascimento, David Soares, Daniel Soares, Edna Macedo e Cezinha de Madureira.

Novos nomes ganham espaço nas urnas

A renovação não significou uma perda generalizada de espaço para políticos evangélicos. Pelo contrário: os resultados também foram marcados por votações expressivas de parlamentares ligados ao campo conservador e com forte presença digital.

Nikolas Ferreira (PL-MG) e Lucas Pavanato (PL-SP) ficaram entre os deputados mais votados do país. André Fernandes (PL-CE), também evangélico, apareceu entre os primeiros colocados no resultado nacional. Outro nome que chegou à Câmara foi Guilherme Kilter (Novo-PR), líder de jovens na Primeira Igreja Batista de Curitiba, eleito com 270 mil votos.

Especialistas ouvidos pela Folha apontaram diferentes fatores para as derrotas de políticos tradicionais, entre eles a possível perda de apoio dentro das próprias igrejas, a dificuldade de se posicionar na polarização entre petismo e bolsonarismo e a menor presença nas redes sociais em comparação com influenciadores políticos.

Marco Feliciano, que conseguiu a reeleição, afirmou à Folha que a renovação dos quadros políticos é normal e que as ideias são mais importantes do que os nomes. Ele também mencionou o papel dos influenciadores na lembrança dos eleitores na hora de votar.

Disputa entre ministérios da Assembleia de Deus

As eleições também evidenciaram divergências entre dois importantes ramos da Assembleia de Deus: o Ministério do Belém e o Ministério Madureira. As duas denominações têm uma disputa histórica por liderança e representação política.

José Wellington Júnior, líder do Ministério do Belém, comemorou a eleição de candidatos ligados à sua igreja e fez uma declaração interpretada como indireta aos rivais: “Andaram dizendo por aí que iam ensinar o [Ministério do] Belém a fazer política, mas ainda bem que nós não aprendemos com eles, porque nós elegemos, eles não”.

O Ministério do Belém garantiu a reeleição do deputado federal Paulo Freire (PL) e da deputada estadual Marta Costa (PSD). Já candidatos ligados a Madureira tiveram outro resultado: Cezinha e Oseias não se reelegeram, e os estreantes Elias e Rogério, todos do PL, também não conquistaram as vagas disputadas.

Cenário aponta mudanças na representação política evangélica

Os resultados mostram trajetórias diferentes dentro do eleitorado evangélico. De um lado, Malafaia conseguiu apoiar candidatos eleitos em diferentes níveis do Legislativo. De outro, lideranças tradicionais de igrejas perderam espaço, enquanto parlamentares com presença digital e identificação política conservadora alcançaram votações expressivas.

A disputa de 2026, portanto, não eliminou a influência religiosa na política, mas evidenciou que a ligação formal com uma igreja ou o apoio de dirigentes denominacionais não se traduziu em vitória para todos os candidatos. A composição da representação evangélica passou a incluir diferentes perfis, estratégias de comunicação e formas de mobilização eleitoral.

Fonte: Folha de S.Paulo e UOL

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