Auditores da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra) vão se reunir, amanhã, na capital gaúcha, com o procurador da Fazenda Nacional no Rio Grande do Sul, Dr. Diogo da Silva, para tentar fechar acordo quanto à dívida fiscal da instituição, anunciada em 2 bilhões de reais (cerca de 909 milhões de dólares), dos quais a reitoria reconhece apenas 350 milhões de reais.

Em 36 anos de história, essa é a pior crise que a Ulbra enfrenta, com uma dívida contraída junto a bancos nacionais e estrangeiros de 270 milhões de reais (122 milhões de dólares), que consomem 20 milhões de reais (9 milhões de dólares) por mês a título de juros e amortizações. A universidade tem uma receita mensal de 60 milhões de reais para uma despesa de 70 milhões de reais.

“A crise financeira internacional nos surpreendeu”, disse para a ALC o advogado tributarista Reginaldo Bacci, coordenador do Comitê de Reestruturação e Gestão Financeira da Ulbra, reportando-se à rolagem da dívida bancária, que “de um momento a outro ela não conseguiu mais fazer”. A Ulbra, disse, não tem um problema econômico, mas financeiro, de fluxo de caixa.

Mesmo que o problema da instituição seja complexo, admitiu Bacci, uma vez renegociada a dívida e acertado o fluxo de caixa “o resto se arruma em seis meses”, afirmou. O patrimônio da Ulbra, subavaliado, é de 2,2 bilhões (1 bilhão de dólares), mas deve alcançar, depois de nova avaliação solicitada à Caixa Econômica Federal, 2,5 bilhões a 3 bilhões de reais, apontou o advogado.

Com o alongamento da dívida a Ulbra espera reduzir o pagamento de juros e amortizações de 20 milhões de reais para 6 milhões de reais por mês. Bacci revelou ao jornal Valor Econômico que cerca de 70% dos débitos, que tinham vencimentos previstos para 15 a 16 meses, foram alongados para 60 meses, com taxas semelhantes às praticadas nos contratos originais.

Embora não pudesse dar detalhes da transação porque “o momento não é bom”, Bacci adiantou que a instituição fechou um grande negócio e que deverá vender, ainda, terra e imóveis que sequer estão sendo utilizados. As áreas de educação e saúde da Ulbra vão passar por reestruturação, buscando a diminuição em 20% do montante das despesas, informou o advogado.

A Ulbra chegou nesse estágio, disse Bacci para a ALC, porque “fez investimentos demais” e não se dava conta do volume de dinheiro investido em projetos sociais, culturais e na filantropia. “Chegamos a uma conta de 40 milhões de reais por ano em projetos sociais”, revelou, garantindo que a instituição não deixará de alocar recursos para a filantropia, que é uma de suas características.

Mantida pela Comunidade Evangélica Luterana São Paulo, de Canoas (na região Metropolitana de Porto Alegre), a Ulbra tem nove campi no Rio Grande do Sul (Canoas, Cachoeira do Sul, Carazinho, Gravataí, Guaíba, Porto Alegre, São Jerônimo, Santa Maria e Torres) e seis campi nos Estados do Amazonas, Goiás, Pará, Tocantins e Rondônia, somando 152 mil alunos matriculados, dos quais 143 na educação superior e nove mil na educação básica. A inadimplência na Educação Superior da instituição está em torno de 30%.

Hoje à noite, os 1,9 mil docentes da Ulbra locados nos nove campi do Rio Grande do Sul estarão reunidos em assembléia para decidir os próximos movimentos. “Existe um forte indicativo de greve”, informou o diretor Adjunto de Políticas Sociais, Serviços, Esportes e Lazer, Ângelo Estevão Prando, do Sindicato dos Professores do Rio Grande do Sul (Sinpro-RS).

A Ulbra está com salários dos professores atrasados. Depositou apenas um quinto da folha de setembro, a folha de outubro está em aberto e não foi pago a metade do décimo terceiro salário de docentes. O Sinpro ingressou com ação na Justiça para garantir esse pagamento. A folha, de 16 milhões de reais (7,27 milhões de dólares), líquida, foi depositada com atraso em quatro meses deste ano, de acordo com o jornal Valor Econômico.

“Tem professor que está desesperado, sem condições, sequer, de ir ao trabalho, pois estão com o cheque especial estourado, e solicitaram dinheiro emprestado a parentes e amigos”, revelou Prando.

Embora sem qualquer ingerência administrativa na Ulbra, a direção da Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB) “vê a situação com muita preocupação”, disse à ALC o presidente da denominação, pastor Paulo Moisés Nerbas. A IELB estendeu ao reitor da Ulbra o seu apoio e “ora pedindo para que, de fato, possa ser encontrada uma solução”.

Nerbas lembrou a importância da Ulbra para o trabalho da igreja, seja na formação teológica dos seus pastores, na Pastoral Universitária e na ampliação da missão, uma vez que surgem novas congregações onde a instituição educacional está presente.

Além da educação, seu foco principal, e do Ulbra Saúde, a instituição tem investimentos na Basa Participações, fabricante de soros em Caxias do Sul, na área esportiva (futebol e vôlei) e cultural.

Fonte: ALC