Vandalismo no Palácio do Planalto em Brasília no domingo, 8 de janeiro de 2023.
Vandalismo no Palácio do Planalto em Brasília no domingo, 8 de janeiro de 2023.

Milhares de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) se reuniram em manifestação na praça dos Três Poderes, em Brasília, na manhã deste domingo (8); entretanto, no início da tarde, criminosos romperam os bloqueios e invadiram as sedes do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal (STF) e o Palácio do Planalto.

No meio dos invasores estavam muitos que se diziam cristãos/evangélicos, que até chegaram a cantar hinos quando estavam entrando ou já dentro dos prédios.

De acordo com reportagem da Folha de S. Paulo, Mari Santos, uma pastora manauense que não só participou do vandalismo que tomou Brasília no domingo (8), como postou cada passo seu numa rede social, escreveu: “Máscara, vinagre, óculos de natação… E Deus será nosso escudo”. Naquele momento, ela saía do quartel-general da capital rumo à Esplanada dos Ministérios.

O cantor gospel Salomão Vieira já havia aparecido em vídeo convocando o que chamou de patriotas para estar no Distrito Federal neste fim de semana. Salomão, que é acusado de ter aplicado um golpe em mais de 70 pessoas, totalizando quase R$ 1 milhão, foi banido das redes sociais.

Segundo informações que constavam na bio do perfil de Salomão no Instagram, ele é da cidade de São Paulo, membro da Assembleia de Deus e canta desde os 8 anos de idade, diz o site Fuxico Gospel.

Antes de ter sua rede social derrubada, Salomão Vieira gravou um vídeo, no qual afirmou que não depredou nada em Brasília. O cantor criou um perfil reserva para divulgar a gravação em que tenta se isentar do vandalismo ocorrido na capital do país.

Ana Marita Terra Nova, casada com uma das maiores lideranças evangélicas do país, o apóstolo Renê Terra Nova, reproduziu em suas redes um chamado para ação. “Dois meses nos quartéis: valeu muito, sim! Agora… É parar e dizer mesmo: intervenção militar!”, dizia a mensagem que compartilhou na véspera da tentativa de golpe.

Após a repercussão nas rede sociais de sua suposta participação convocando pessoas para os atos golpistas em Brasília, Terra Nova publicou uma nota de repúdio em seu perfil no Instagram.

“Como ministra da palavra de Deus há 40 anos, dentro e fora do ambiente eclesiástico, sempre fui pautada na verdade e observância estrita aos princípios judaico-cristãos, da moral e dos bons costumes e jamais incentivei, por qualquer meio, muito menos em meus perfis sociais, atos de barbárie, lesão a patrimônio público ou vandalismo ou qualquer outro ato ilegal.”, disse Ana Maurita.

O portal Fuxico Gospel descreveu cenas de fiéis entoando louvores durante o vandalismo que depredou prédios dos Três Poderes.

O apóstolo Estevam Hernandes, líder e fundador da Igreja Renascer em Cristo e da Marcha para Jesus, apoiador de Bolsonaro, disse à Folha de S. Paulo que repudia “essa forma grotesca e antidemocrática” de protestar, “porque Deus nos deu a paz de Cristo”.

“A manifestação somente é legítima quando é pacífica. Fora isso, torna-se o vandalismo que estamos presenciando. Minha oração é que Deus tenha misericórdia do Brasil.”

Depois, durante um culto à noite, disse em púlpito que “esse não é o caminho da democracia, não é o caminho da vontade de Deus”.

“Infelizmente as pessoas radicalizam e esquecem que só existe um caminho, que é o da oração”, pregou. “Oramos para que Deus interfira segundo a sua vontade. Nós repudiamos completamente o que está acontecendo hoje em Brasília.”

César Augusto, apóstolo da igreja Fonte da Vida, que assim como Estevam Hernandes, participou de atos de campanha de Bolsonaro, também desaprovou a trama antidemocrática.

“Como pastor, sacerdote e ministro do Evangelho, não posso aceitar nenhum tipo de ação de violência, em hipótese alguma”, disse.

Agora é hora, segundo Augusto, de “pensar muito antes de falar, para não incendiar o que já está pegando fogo”. Uma boa oportunidade para “pessoas que sabem valorizar o diálogo, que pensam na nação, não pensam nas ideologias, entrarem em cena e apaziguarem o país”.

Em nota, o bispo Eduardo Bravo, presidente da Unigrejas, braço da Igreja Universal, disse que o caos na Praça dos Três Poderes “deslegitima os movimentos que, até então, vinham colocando suas pautas dentro dos limites da lei e ordem”.

Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, falou em “manifestação do povo” e criticou o que enxerga como “dois pesos e duas medidas” no tratamento dado a manifestações bolsonaristas e de movimentos da esquerda.

“Cansei de ver o MST invadir prédio público e ficar acampado dois, três dias. A militância do PT pode fazer isso, e ninguém diz que é ato antidemocrático. Que conversa é essa? Ou será que nós estamos em que planeta? Em que país nós estamos? Ou será que o povo, a imprensa, os políticos têm amnésia?”

Estamos falando, afirmou o pastor ao jornal, de uma “manifestação do povo”.

“E aí? Usa dois pesos, duas medidas? Quando é a cambada de esquerda, é ato de livre manifestação. Quando são os outros, é ato antidemocrático? Isso é uma vergonha.”

Mais tarde, em vídeo, Malafaia listou tentativas de invasão do Movimento dos Sem Terra, como uma empreendida contra o Supremo Tribunal Federal em 2014, que deixou policiais feridos.

Emendou dizendo que foi “contra quebra-quebra de petistas” e continua “contra quebra-quebra” em geral. E vaticinou: “Não brinque nem massacre com o povo, que tem revolta popular”.

Presidente da bancada evangélica e membro da mesma Vitória em Cristo, o deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) usou estratégia similar de comparar protestos distintos.

Postou na internet montagem com uma foto de manifestantes ocupando a cobertura do Congresso nos protestos de 2013, que começaram na esquerda e resvalaram para uma miscelânea ideológica, e o ato deste domingo, que devastou várias áreas internas do Executivo, do Judiciário e do Legislativo.

“Na democracia TODA manifestação tem um recado claro”, disse. “O que é inaceitável é a violência e depredação do patrimônio público, não compactuo com esses atos! Que a ordem seja retomada.”

A reprovação veio escoltada por uma crítica a Lula. “Ver um descondenado virar presidente causa revolta!!! Deus tenha misericórdia do Brasil!”

O deputado federal e pastor Marco Feliciano (PL-SP), outro apoiador de Bolsonaro, afirmou ver como legítima “a revolta popular, que é quando um grupo de pessoas se organizam para protestar”. Mas as depredações provocadas por “ânimos acirrados” ultrapassaram o sinal, segundo ele.

“Por causa delas, os manifestantes serão chamados de baderneiros e criminosos. O que vem a seguir será uma repressão sem limites.”

“Estarei com o presidente @jairbolsonaro para o que der e vier! Onde ele estiver, lá eu estarei! Sempre!”, diz Feliciano em um tweet que está fixado na sua conta.

O pastor Jorge Linhares, líder da Igreja Batista Getsêmani, publicou um vídeo em que fala sobre os atos de vandalismo protagonizados por bolsonaristas no último domingo (8).

Na gravação, Linhares condenou a violência e disse que a igreja tem que orar. No entanto, em contradição, ele declarou que a revolta bolsonarista estava prevista devido às ações que não ficaram claras nas últimas eleições, além das perseguições.

Desse modo, para ele, diz o site Fuxico Gospel, a invasão em Brasília foi uma “explosão de uma revolta de uma série de ações contra pessoas que amam o Brasil”. 

O pastor bolsonarista Júnior Trovão cobrou a punição dos envolvidos nos ataques aos prédios dos Três Poderes em Brasília, no último domingo (08/01).

“Que todos os que arquitetaram isso sejam presos, seja de direita ou esquerda”, declarou ele nas redes sociais.

Trovão já havia cobrado a prisão das pessoas que vandalizaram Brasília, assim que o grupo invadiu os prédios públicos e começou a depredar tudo o que via pela frente.

“Que sejam presos todos aqueles que causaram os danos ao patrimônio público”, disse ele no Instagram.

O pastor Marcos Galdino, presidente da Assembleia de Deus em Santo Amaro (ADSA-Brasil), repudiou o extremismo e o exagero por parte dos manifestantes, mas lembrou que, apesar de inaceitável, a manifestação é fruto de “decisões inconstitucionais” por parte do judiciário.

O apostolo Agenor Duque, líder e fundador da Igreja Apóstolica Plenitude Trono de Deus (IAPTD), lembrou que as manifestações são legítimas e constitucionais. Por outro lado, declarou que “depredações e invasões de patrimônio públicos, como as que aconteceram no último dia 08 (domingo) são uma verdadeira vergonha para a nação brasileira”.

Duque também disse que “o atual presidente do país, mais uma vez, faz aquilo que lhe é próprio: mente descaradamente. Desta vez, teve coragem de afirmar que a esquerda e o PT jamais agiram de forma semelhante. Não é isso que a história registra”.

Fonte: Folha de S. Paulo, UOL, Fuxico Gospel

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