A advogada chinesa Ruth Wang decidiu não retornar à China e buscou refúgio temporário em Taiwan após sofrer severa pressão estatal por sua atuação na defesa de membros da Igreja Zion. Sócia do escritório VDoor Law Firm, ela temia se tornar o próximo alvo do regime após a escalada de ameaças contra sua equipe jurídica.
O caso expõe os riscos crescentes para profissionais do direito que defendem minorias religiosas no país asiático. Ruth tomou a decisão de se exilar temporariamente durante uma viagem familiar ao exterior, após ser intimada por autoridades de Pequim de maneira repentina.
O estopim da fuga e a pressão sobre o escritório VDoor Law Firm
Ruth estava de férias no Japão com sua família quando recebeu um telefonema de autoridades chinesas exigindo que comparecesse pessoalmente a uma reunião em Pequim. Diante do cenário de intimidação, ela decidiu não retornar e viajou para Taiwan, onde recebeu autorização para permanecer temporariamente enquanto busca uma alternativa segura de reassentamento.
A pressão sobre o escritório VDoor Law Firm vinha aumentando de forma asfixiante. As autoridades chinesas exigiram a dissolução da empresa sob ameaça de fechamento forçado e impuseram graves restrições aos profissionais envolvidos:
- Zhang Kai, fundador do escritório e mentor de Ruth, teve sua licença profissional revogada e foi impedido de deixar a China.
- Outros advogados do escritório receberam uma suspensão de seis meses de suas atividades profissionais.
- Autoridades judiciais exigiram formalmente que os profissionais do escritório abandonassem a defesa de casos relacionados à Igreja Zion.
Alguns advogados que tentaram migrar para outras bancas de advocacia também enfrentaram restrições severas do governo, inviabilizando a continuidade de seus trabalhos.
A perseguição sistemática contra a Igreja Zion
A ofensiva estatal contra os advogados está diretamente ligada à repressão sofrida pela Igreja Zion. Fundada em 2007 pelo pastor Ezra Jin, a congregação é uma das maiores igrejas domésticas não registradas da China, reunindo mais de 5 mil fiéis em cerca de 40 cidades.
Em outubro de 2025, o regime realizou uma ampla operação contra a igreja, resultando na prisão do pastor Ezra Jin e de outros líderes. Jin permaneceu detido por quase nove meses, sendo libertado em julho de 2026. A situação do pastor chegou a ser discutida pelo presidente norte-americano Donald Trump com o líder chinês Xi Jinping em maio daquele mesmo ano.
Apesar da libertação de Jin, a perseguição continua intensa. Segundo dados da organização ChinaAid, pelo menos oito líderes da Igreja Zion continuam presos no Centro de Detenção de Beihai, na província de Guangxi, aguardando novos desdobramentos judiciais.
Um futuro incerto e a busca por acolhimento internacional
Atualmente em Taiwan, Ruth Wang enfrenta a burocracia de um território que não possui legislação formal para concessão de refúgio político e mantém uma relação diplomática delicada com cidadãos da China continental. Contudo, o Conselho para Assuntos do Continente de Taiwan informou que há mecanismos específicos para gerenciar o caso.
“Eu sinto que nossa família está enfrentando um futuro incerto. Não sabemos o que acontecerá ou se haverá algum lugar que possa nos acolher”, desabafou a advogada em entrevista à Associated Press.
Bob Fu, fundador da ChinaAid, apelou publicamente para que Taiwan garanta a proteção de Ruth contra uma possível devolução forçada e pediu ajuda aos Estados Unidos e a outros países para encontrar um destino definitivo para a família. Como alternativa de reassentamento, a advogada avalia a possibilidade de ingressar nos EUA ou no Canadá para realizar estudos ou solicitar asilo formal.
Diante da extrema incerteza, Ruth Wang declarou que busca esperança na narrativa bíblica do livro de Rute, comparando sua jornada à da personagem que encontrou acolhimento em uma terra estrangeira através de Boaz, confiando que receberá o amparo necessário para reconstruir sua vida com segurança.







